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Identidade nacional e consciência estrangeira

Escrevera eu, um dia, a propósito da regionalização, que quanto maior necessidade temos de aprofundar a consciência nacional, mais devemos aprofundar a identidade regional.

N/D
15 Mar 2005

Uma consciência nacional forte exige uma tomada de consciência também forte dos valores e das diferenças entre as diversas regiões. Se assim não fosse, as regiões diluir-se-iam e a consciência nacional ficaria mais pobre.
O que se diz para um país (neste caso, o nosso) poderemos afirmá-lo, com todo o rigor, em relação à Europa, agora dos 25.

De modo algum poderemos construir uma Europa coesa, unida e forte, se os Estados forem fracos e se cada qual não tiver consciência do valor que tem, e não se afirmar como tal.

Deste modo, a consciência nacional (não digo, consciência nacionalista) é condição “sine qua non” para ajudarmos a construir uma Europa, não uma “Europa fortaleza”, encerrada egoisticamente sobre si própria, mas uma União Europeia aberta e solidária.

Quem seguiu a génese deste processo de construção da Comunidade Europeia (agora União) poderá lembrar-se que o económico foi preponderante durante muitos anos.

Poderemos lembrar-nos dos diversos Tratados e das diversas Cimeiras; e a conclusão é que o mundo da economia, do comércio, das relações comerciais (Schengen) foi sempre a questão prioritária, à qual tudo se submetia. Chegou-se mesmo a protestar contra a “Europa fortaleza”, a “Europa dos cifrões”.

Julgo que essa base (quase unilateral) está a ser ultrapassada e que uma visão abrangente e política está a vir ao de cima. Do liberalismo (ou neo-liberalismo) económico, passaremos a uma fase da socialização política. Não poderia deixar de ser, pois se não, teríamos, dentro de pouco tempo, a dimensão económica a manobrar a gestão política. É uma afirmação basilar no mundo da gestão pública que o económico não pode estar acima do político, não o pode controlar, nem manipular.

Faz-me lembrar as fases por que a emigração passou: uma primeira, a económica (os emigrantes partiram para pagar a casa, pagar as dívidas, arranjar dinheiro para pôr os filhos a estudar); a fase cultural (os pais começaram a pensar que tinham de dar uma qualificação profissional aos filhos no próprio espaço da imigração); a fase política (pouco a pouco os emigrantes foram despertando para os direitos de trabalhadores e cidadãos no lugar onde trabalhavam e viviam com as suas famílias).

Estas três fases poderão ser elucidativas para o caso da construção da Europa: fase económica, fase cultural, fase política. Hoje, poderemos acrescentar, cada vez mais, a fase globalizante.

A construção da União Europeia exige a percepção destas quatro fases que, sendo processos sucessivos e continuados, têm que se tornar cada vez mais, simultâneos e permanentes. Economia, cultura, política, globalização, são fases de um mesmo processo, ou peças duma mesma construção.

Há muita gente descrente quanto ao caminho que a Europa está a trilhar. Para muita gente, esta construção é algo que não lhes diz respeito. E uma coisa inerente à política profissional. A fraca adesão às urnas nas eleições europeias dá-nos essa sensação.

Mas será mesmo assim? Uma coisa é certa: com ou sem a nossa participação, a política constrói as diferentes comunidades e, neste caso, a Comunidade Europeia.
Os países que se combateram em duas guerras sucessivas decidiram dar as mãos e construir, em conjunto, um projecto comum. Não apenas um mercado, uma economia, mas também uma política e política aberta ao mundo. E uma política pautada por valores, que dê a esta união uma coesão segura e forte, e a este projecto uma qualidade de vida, alimentada pelos valores da cultura e do espírito.

Os Bispos franceses, numa declaração da Comissão Social, fazem apelo à “democracia de participação”, para que os cidadãos (cristãos) tomem também nas suas mãos as decisões que lhes dizem respeito, como são a “escola, a habitação, a saúde, os transportes, o urbanismo, o ordenamento do quadro de vida, a luta contra a delinquência, a inserção social, a formação permanente, as iniciativas da criação de empregos, a animação social e cultural”.

Isto quer dizer que os cidadãos estão convidados, não só a reclamar quando as coisas não funcionam bem, mas a participar activamente, de modo consciente e responsável, em tudo aquilo que lhes diz respeito, quer a nível nacional, quer (neste momento) a nível europeu. A Europa constrói-se connosco ou sem nós. Sem nós o que poderá acontecer, é que se construa contra nós.




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