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É preciso uma nova linguagem

Gostava de partilhar com os leitores uma opinião acerca de um tema sobre o qual tenho ouvido muitos comentários: a questão da linguagem e do modo de focar os apelos à penitência na Quaresma.

N/D
15 Mar 2005

Pode parecer que é um tema meramente reservado aos responsáveis religiosos, mas não, tem uma dimensão social muito maior, diz respeito a todos. Vem isto a propósito das reacções de indiferença com que muitas vezes são correspondidos esses apelos. É certo que existe hoje um clima cultural e social adverso às exigências da mensagem cristã, como noutros tempos, em condições diferentes, também terá havido.
Os apelos de hedonismo são hoje lugar comum, o carpe diem como filosofia de vida está na moda (vive o prazer de cada momento do teu dia, que é isso o que se leva desta vida), o forte apelo da sexualidade, desligada dos afectos, é hoje a motivação de base dos anúncios comerciais. Sendo assim, como se há-de tornar apelativa a mensagem de penitência, que muitas vezes contraria essas tendências, dando ocasião a que os mensageiros sejam apelidados de uns tristes desmancha-prazeres?

Não estou a dizer que utilizem o estratagema subreptício do falado livro sobre ditos códigos religio-sos secretos que procura demonstrar, de modo não explícito, mas claramente compreensível, que afinal Jesus era bem diferente do que nos transmitiram e, portanto, pode-se fazer o que se quiser, sem estar com problemas de consciência, porque estas exigências da moral cristã não correspondem à verdade.

Não, os que pregam não podem usar esse argumento, porque têm de ser fiéis à mensagem que receberam e que vão proclamar. A fidelidade é uma condição constitutiva da sua identidade. Mas há uma exigência e uma obrigação a que não se podem escusar: usar uma linguagem compreensível e actualizada. Essa exigência é da sua responsabilidade (ver, aos Domingos, Carta a um Pregador, no caderno Religião).
Tomemos então o caso do apelo à penitência na Quaresma.

1. Se perguntar às pessoas que são cristãs, por formação e prática religiosa, se gostam do tempo da Quaresma e que sentido dão aos apelos á penitência, a resposta não será bem aquela que os pregadores esperavam. Se perguntar o mesmo a pessoas que não são cristãs, pior um pouco. A Quaresma é um tempo simbolicamente triste, que se veste de roxo, em que só se fala de penitência, de jejum, de sacrifícios.

Essas eventuais respostas de desinteresse não significam necessariamente estar contra a mensagem; o que significam é que ela não foi bem comunicada para poder ser bem entendida e aceite. Ela foi feita numa linguagem e num discurso negativos que não podem seduzir as pessoas, foi dita de uma forma categorial em que se pretende dar valor positivo á penitência em si mesma, quando o não pode ter. Só o prazer e a felicidade nos atraem, não o sofrimento e a tristeza.

2. Mas, dirão: é assim, nessa linguagem directa, que esse apelo vem descrito na Bíblia. Lá diz-se: convertei-vos e fazei penitência. Pois é, mas nesse tempo a representação que o povo tinha de Deus era muito personalizada, muito próxima de si, muito presente na sua vida. Deus era representado e entendido como o Senhor, o Rei, aquele que enviava de vez em quando os seus Profetas para falar pessoalmente com o povo. Era um Deus próximo do povo. Hoje, não é assim. Hoje, a representação de Deus está distante e até omissa na sociedade e na vida.

Quem for hoje anunciar a mensagem estará a falar para homens de um tempo e de uma cultura diferente da de antigamente, com uma vivência diferente da vida; por isso, tem de usar uma linguagem diferente. Não há vivências intemporais, diz a Fenomenologia. Não há uma linguagem intemporal. Se a mensagem não for expressa na linguagem do viver de hoje ela torna-se impessoal e não inteligível. Se a isso ajuntarmos o desenfoque existencial dos problemas, pior ainda.

3. Cada homem real e histórico tem o seu campo de ser, de estar na vida, inserido no tempo e nas condições sociais e culturais em que vive. E é a partir dessa sua experiência de vida que o ser humano se abre ao conhecimento do outro, mesmo em sentido transcendente.

O cristianismo, sendo embora uma revelação, não pode pôr de parte a sua dimensão religiosa, que é inerente à condição humana. Quer isto dizer que, enquanto revelação, Deus vem ao encontro do homem e oferece-lhe o dom de si mesmo, que é sobrenatural; mas o homem também tem, no deserto da sua existência, necessidade e sede de procura do Outro que, sem ele, se torna vazia e sem sentido, meramente voltada para a morte. O lugar de encontro destas duas pessoas, que pode ser o lugar da fé, é o ponto de encontro dessas duas realidades: a revelação e a religião.

A possibilidade de encontro é a perspectiva cristã do existencialismo fechado sobre a sua limitação. Ora, como se pode esperar que o homem ouça a mensagem de alguém que vem ao seu encontro se essa mensagem não tiver sido entendida? É a eterna questão da linguagem actual do anúncio da mensagem.

4. Não se pode falar de fé senão a partir das representações humanas do encontro humano, da procura da felicidade e do prazer que ele dá. É negativo apelar aos homens de hoje que façam penitência, porque não entendem o aparente contra-senso desse convite. Os homens têm uma fome instintiva de encontrar o prazer da felicidade. São feitos assim. Falem-lhes de amor, não de penitência. Falem-lhes do amor ao Cristo vivo da história da salvação, que agrega a si todos os homens como irmãos, homens que são da nossa condição e pelos quais temos também mútua corresponsabilidade, porque todos precisamos uns dos outros.

É significativa de amor e solidariedade com os outros a forma como as pessoas reagiram à tragédia asiática recente. A penitência é isso: renúncia por amor. Não lhes falem de penitência como um valor em si, porque não é nem desperta a motivação profunda da pessoa. A penitência, a renúncia a alguns prazeres fora das exigências do amor é doentia, é masoquismo, é uma forma alterada e invertida de amar.

Não estou contra a necessidade de penitência, mas estou pelo aprofundamento do amor que pode exigir renúncias, penitência. Não estou contra a penitência como forma de purificação, de ascese. A quem ama nada custa uma renúncia, porque o amor dá novo sentido e novos valores à vida. É essa a perspectiva que dá sentido e motivação à penitência.

Há dias, numa livraria do centro de Lisboa, deparei com um fenómeno que nunca tinha visto: uma parte da montra só tinha livros de temática religiosa, o que mostra a procura que têm e o apreço que os leitores estão a dar a esses assuntos. Entre esses livros estava um de tamanho maior, com uma bela capa ilustrada onde sobressaía o retrato de Santa Teresa de Ávila, uma mulher bonita e elegante extasiada: Apaixonada por Deus, era o título. Não dizia: uma mulher apaixonada pela penitência, porque seria um contra-senso sem força apelativa, embora se pressuponha as grandes renúncias que fez por amor. São inevitáveis, porque o amor é uma opção. E essas nem sequer ninguém contesta.

É tudo uma questão de linguagem e de enfoque da mensagem.




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