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Mudar para governar

Falta saber a que grupo de esquerda ficará vinculado Freitas do Amaral. Pela ideia, a antiga, que temos dele deverá ir pelas palavras. E vai dar gosto ouvi-lo usar a terminologia da esquerda a um homem que foi sempre da direita

N/D
14 Mar 2005

Diz-se a respeito do nascimento: a pobre pariu um moço a rica teve um menino; de igual maneira se fala em política: o pobre é um-vira-casacas, o rico fez um-percurso-político.
É costume este percurso político fazer-se da esquerda para a direita. Casos como Zita Seabra há vários. Quantos há no PS que foram comunistas? E quantos no CDS que foram PSD? O que não é nada vulgar é ir-se da direita para a esquerda, como é o caso de Freitas do Amaral.

E porque é mais vulgar a trajectória da esquerda para a direita do que a de sentido contrário? Porque a idade vai transformando as pessoas em conservadoras, em apreciadoras de aposentos – daí o conceito de aposentado, aquele que fica no aposento – e refastelado em sofás cómodos.

Há um certo berço como matriz e também o desejo íntimo de conservar o que se tem; daí passarem a ser conservadores de bens materiais, de defensores de conceitos e de princípios que foram os seus. Entendem que o que os fez chegar até ali deve servir de norma para fazer chegar os filhos e os netos.

É um legado.

A idade é um caminho de perda de forças e, nesta deterioração tão natural como inevitável, o bulício da inovação e a agitação de novas ideias produzem um desequilíbrio que de todo se não coaduna com a aposentação.

A esquerda é esse constante agitar das águas, aquele fervilhar em pouca ou muita água, a generosidade utópica, o não estar bem onde se está. Estar é parar. Parar é estacionar. E o que é preciso é caminhar sempre mais e em frente. Daí que a esquerda tenha dois tipos de esquerdistas: os conservadores e os agitadores.

Os primeiros entendem que a luta deve ser à antiga: grandes manifestações de rua, luta sindical, motins e greves como armas de arremesso político; os agitadores já perceberam que isso não passa de grandes chuvadas que passam e secam o pavimento sem, no fundo, pouco ou nada resolver.

É preciso fazer mais.

Apostam nas palavras críticas pela força das demonstrações das realidades da pobreza, defendem os esbulhados, colocam-se ao lado dos fracos e oprimidos. E ficam muito “zangados” quando outros aproveitam os descontentamentos sociais para fazer política, por entenderem que é esse o seu campo de acção e sentem-se traídos e julgam que os outros cometem um abuso.

São monopolistas e ciumentos das desgraças alheias. Estes são os grãos da sua farinha, farinha da suas fornadas. Falta saber a que grupo de esquerda ficará vinculado Freitas do Amaral. Pela ideia, a antiga, que temos dele deverá ir pelas palavras. E vai dar gosto ouvi-lo usar a terminologia da esquerda a um homem que foi sempre da direita.

Não foi Brecht quem disse que mais cedo ou mais tarde começamos a ficar parecidos com os nossos inimigos? Essas mesmas palavras que lhe rebentarão na boca, como castanhas por beliscar.

Não é que neguemos ao homem o direito de mudar, mas o que todos perguntam é se em Freitas do Amaral podemos considerá-lo um “cristão-novo” da esquerda, ou um verdadeiro revolucionário, um convicto trotequista, maoista, leninista ou marxista?

Qual destes velhos “apóstolos” vão ser directores políticos de Freitas do Amaral? Quais vão ser os seus gurus?

As paixões tardias são fogo em palheiro velho e, por este conceito, nada nos admiraria que o fundador e ex-dirigente do CDS – que voltas não dará no túmulo Amaro da Costa – aparecesse de bandeira na mão, nas ruas de Lisboa, a gritar, em labaredas ardentes, de palheiro velho, slogans como este, mudar para governar, mudar para governar.




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