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O corta-fitas

Em Portugal, não sei como nom porquê, gerou-se uma tremenda aversão ao chamado «corta-fitas» e sempre que se faz menção a esse nome, ordinariamente, faz-se em sentido pejorativo e com despudorado desdém.

N/D
13 Mar 2005

Pois, ao contrário de muita gente, confesso ter uma certa simpatia pelo trabalho do chamado corta-fitas.

Não tanto pela cerimónia em si mas pelo que representa e pelo que perspectiva.
A aversão a este título cheira a inveja e denota uma determinada propensão pela inércia, que caracteriza muita gente e muito político.

Gosto, por isso, do «corta-fitas».

Mais do corte, do que da tesoura ou da fita.

A fita está sempre presente, em qualquer inauguração; a tesoura é que varia.

Enquanto, nas mãos dos chamados corta-fitas, a tesoura recebida em salva de prata abre novos caminhos para o futuro, libertando empecilhos e ultrapassando obstáculos, nas outras inaugurações, o corte é feito pela língua matreira da oratória discursiva, a rasgar a casaca dos adversários.

Por isso, em todas as inaugurações, há sempre corte; só muda o instrumento e o género da fita.

Quando se corta uma fita, em qualquer inauguração, fica aberto o caminho para o progresso e há prova de trabalho feito.

É, por esse motivo, que gosto da cerimónia e só lamento haver tão poucas fitas para cortar, o que denota alergia ao progresso e promessas não cumpridas.

– Além do corte da fita, gosto também da cerimónia, justa e criteriosa, da imposição de medalhas e colares.

Gabo-me, até, de ter tido a honra de ter colocado ao peito da então pequena atleta, Manuela Machado, no campo dos Monções, a primeira medalha que ela recebeu, ainda antes de ter entrado no mundo do atletismo nacional e internacional.

Quem sabe se não foi aquele modesto reconhecimento que a deu a conhecer ao mundo do atletismo e que a incentivou para os altos vôos que se seguiram?…

Mas não é, só por este facto, que gosto da imposição de medalhas aos atletas.

Gosto pelo que representa e por ser o reconhecimento do mérito e do trabalho penoso que um atleta tem de fazer todos os dias.

E que alegria me enche o peito, ao ouvir o hino do meu país? Logo após a imposição das medalhas, enquanto a bandeira verde-rubra sobe o mastro da glória!…

Mas, também, que inveja se apodera de mim, quando só vejo subir ao pódio atletas estrangeiros!…

É certo que, por vezes, as inaugurações e a imposição de medalhas banalizam-se, porque ou se inauguram obras de pouca valia, ou se condecoram pessoas sem grande mérito.

São os aproveitamentos do costume, da parte dos ineptos e dos incapazes.

Daqui resulta o desinteresse e o menosprezo do acto.

O que devia ser uma festa de reconhecimento, torna-se uma banalidade, a roçar o ridículo.

Daí talvez, o menosprezo dado ao «corta-fitas» e a subestimação da pessoa galardoada.




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