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A audácia da Filosofia num país chamado Liliputh

Se não afastarmos agora o nevoeiro que ameaça novamente toldar o nosso olhar, poderá ser demasiado tarde quando nos apercebemos que, sem dar por isso, nos encurralaram num beco, por um período indeterminado.

N/D
13 Mar 2005

“…autocracia política ou de ditadura mediática no seio da democracia.

Se não afastarmos agora o nevoeiro que ameaça novamente toldar o nosso olhar, poderá ser demasiado tarde quando nos apercebemos que, sem dar por isso, nos encurralaram num beco, por um período indeterminado.

Não pelo regime santanista, que pode ser breve, mas por outro qualquer que aproveita uma série de circunstâncias (económicas, sociais, psicológicas) para operar uma derrapagem da democracia para um sistema autocrático de tipo desconhecido.”
José Gil, Portugal Hoje, p. 139

O que temos em epígrafe é o que podemos ler já na parte final do livro de José Gil intitulado Portugal Hoje: o medo de existir, antevisando uma autocracia pluripartidária, desta vez socialista, que poderá provocar o estabelecimento institucional de micro-poderes (macro-poderes?) na sociedade democrática.

Neste sentido, os próximos tempos serão de incerteza a todos os níveis e a filosofia, esta será porventura, a invisível mensagem de Gil, não poderá ser neutral nem indiferente, assim como deverá ser profética para avisar e visar o presente social e mental dos portugueses.

O que confrange na sociedade portuguesa é a análise que Gil estabelece, digamos, efectua uma análise subterrânea à mentalidade social, exceptuando casos pontuais, através da formula da “não-inscrição”, entendida esta como algo em que “nada se inscreve, quer dizer, nada acontece que marque o real que o transforme e o abra”.

Para que o leitor percepcione tal fenómeno, analisa Gil as seguintes características de uma possível ética subterrânea do tecido social português:

i) a falta de um espaço público (no discurso político, no discurso cultural – arte, literatura), ii) a falta de uma comunidade cientifica, iii) a insustentabilidade da aprendizagem democrática, iv) a falta de uma ética do desejo, a qual implica uma insuspeita democracia afectiva (caso concreto, a família), v) o medo e a inveja (quantos de nós, nos nossos deveres profissionais e cívicos não experimentamos tal sentimento a nível institucional, pelo facto de sermos invejados pelos invejosos?!), vi) o “esvaziamento da palavra”, e, finalmente, vii) o desvio das normas ou da lei as quais se orientam para uma “regra invisível” e por esta regidas.

Tais características provocam simulacros mentais, fantasmas humanos.

Ao lado desta ética subterrânea, se assim o quisermos chamar, da mentalidade social portuguesa, Gil, considerado recentemente pelo jornal francês Nouvel Observateur um dos vinte e cinco (25) melhores filósofos do mundo, efectua um outro tipo de análise, o da normalização social, o que pode implicar, na nossa terminologia, a indiferença, a passividade e a individualização social da vida humana, tendo como consequência nefasta a falta de uma consciência social crítica, gostando aqui de destacar quatro características:

i) a consciência evolutiva (interioridade humana), ii) a consciência tal como ela nos aparece no momento presente; iii) a consciência na sua dimensão (tamanho) e iv) a consciência do futuro.

Se as três primeiras poderão ser realizáveis no momento presente, a última é a utopia como fonte concretizadora e não pragmática-racionalista, calculacionista, como se a vida fosse toda ela racionalizada; contudo, na atomização racionalista, a existenciaridade humana não encontra o seu sentido e significado, não teria sabor nem encantamento.

O futuro há-de ser profético-afectivo, utópico.

Atrevemos a citar Georges Steiner: “Todo o verdadeiro acto de cultura, de reflexão e de realização formal da humanidade é um passado tornado presente carregado de recordações do futuro”. Formal e não objectual.

Desta forma, Gil poderia ter aberto caminhos interpretativos explícitos e ter sido mais auda-cioso perante o seu cepticismo s-cial português. Se um dos problemas da “não-inscrição” e, paralelamente, da ética do subterrâneo do tecido social português é, precisamente, o da questão das normas, o que aqui poderemos acrescentar é a falta de uma ética das virtudes e de uma ética cívica em confluência com a ética normativa Cito Gil.

A normalização da sociedade portuguesa actual resulta da tensão, e consequente neutralização, destes dois pólos: o pólo disciplinar que perpetua velhos reflexos de obediência, suscitando subjectividades pré ou proto-modernas, e o pólo de controlo, em que os mecanismos regulamentares decorrem directamente do funcionamento tecnológico dos serviços e as subjectividades correspondentes tornam-se, por assim dizer, dispositivos programados, como um elo da cadeia das novas tecnologias que controlam gestos comportamentos, corpos, afectos.

O biopoder das sociedades de controlo fabrica subjectividades pré-formatadas. (p. 45)

Será que o tão falado choque tecnológico socialista irá fazer parte de um micro-poder institucional da sociedade democrática portuguesa, ou será para providenciar o seu bem comum? Fica a incógnita.

Contudo, não podemos, nem devemos ser “seres adiados”, mas, acima de tudo, seres humanos em construção plena e autêntica e assim saborearmos a vida.

*Mestrando em Filosofia




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