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O anúncio do Padre Serras

O Padre Nuno Serras Pereira, em anúncio publicado num jornal de 2 de Março, informava da sua recusa em dar a Sagrada Comunhão a pessoas que assumem ou defendem comportamentos relacionados com a defesa e a transmissão da vida que não estão de harmonia com a Doutrina da Igreja.

N/D
10 Mar 2005

A polémica decisão tomada por aquele Sacerdote não deixou de me fazer pensar e sugeriu-me as reflexões que enumero de seguida.
1. Considero ponto assente o princípio muito recomendado por Santo Agostinho segundo o qual há que distinguir entre o erro e o homem que erra. Enquanto o erro deve ser denunciado e, por meios legítimos, combatido, a pessoa que erra deve ser respeitada.

Jesus recomendou aos cristãos que sejam misericordiosos como o Pai Celeste é misericordioso e que perdoem setenta vezes sete. Perante as pessoas que erram há que tomar uma atitude de respeito, de compreensão, de tolerância.

2. Tal respeito, tal compreensão e tal tolerância, porém, não significam que se deixe de chamar erro ao erro ou que se branqueiem comportamentos que têm muito de censurável, sobretudo quando tais comportamentos são públicos.

3. A denúncia profética continua a ser um dos deveres dos cristãos de hoje. Denúncia feita cristamente. Denúncia feita tendo em conta as normas evangélicas da correcção fraterna. Mas denúncia feita sem margem para dúvidas nem tibiezas. O facto de, até certo ponto, o trigo crescer ao lado do joio não significa que se chame trigo ao joio ou se deixe de alertar para a existência do joio. Não vamos silenciar a Doutrina da Igreja pelo facto de haver pessoas que a não aceitam. Cobardia e respeito pelos outros são atitudes diferentes.

4. Pode acontecer de, indignamente, se comer e beber o Corpo e o Sangue do Senhor; se comungar sem as devidas disposições. Para isso alertava S. Paulo
(I Coríntios 11, 27-29), prevenindo que, quem o faz, come e bebe a sua própria condenação.

5. Há circunstâncias em que as pessoas se não devem abeirar da Sagrada Comunhão. Trata-se de uma questão de consciência bem formada e de coerência. Leiam-se os números 1355, 1415 e 1650 do Catecismo da Igreja Católica.

No primeiro citam-se palavras de S. Justino, que transcrevo: «Ninguém pode tomar parte (na Eucaristia) se não acreditar na verdade do que entre nós se ensina, se não recebeu o banho para a remissão dos pecados e o novo nascimento e se não viver segundo os preceitos de Cristo».

No segundo recorda-se o que tem sido a doutrina constante da Igreja: «Aquele que quiser receber Cristo na Comunhão eucarística deve encontrar-se em estado de graça. Se alguém tiver consciência de ter pecado mortalmente, não deve aproximar-se da Eucaristia sem primeiro ter recebido a absolvição no sacramento da Penitência».

No número 1650 diz-se, relativamente às pessoas que, tendo celebrado religiosamente um casamento válido, se divorciaram e casaram depois civilmente: «ficam numa situação objectivamente contrária à lei de Deus. Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persistir tal situação».

Na Carta Pastoral «A Família, Esperança da Igreja e do Mundo», publicada em 31 de Maio de 2004, a Conferência Episcopal Portuguesa, recomendando, no número 46, toda a compreensão para com as pessoas que se encontram em tal situação e afirmando que «estes nossos irmãos são chamados, como qualquer outro cristão, a participar na vida da comunidade cristã e na missão da Igreja», não deixa de escrever: «A verdade do matrimónio indissolúvel, expressão da fidelidade cristã e da total comunhão dos esposos – um com o outro e ambos com Cristo e com a Sua Igreja – não pode ser ofuscada ou posta em questão por uma compreensão pastoral de facilidade. A principal concretização desta humildade exigente é a privação da comunhão eucarística, principal expressão da completa comunhão de vida com Cristo, na fidelidade às exigências de santidade que brotam da Sua Páscoa».

Infelizmente há casos em que existem mais mestres do que discípulos. Em que as pessoas fazem a «sua doutrina». Em que as pessoas «formam» a própria consciência de harmonia com os seus interesses e as suas conveniências e se aproximam da Mesa Eucarística quando, pelo seu comportamento notoriamente incorrecto, o não deviam fazer.




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