Fotografia:
A propósito da (ex)comunhão

Poder-se-á dizer: os meios usados pelo sacerdote em questão não terão sido os melhores. É, de facto, questionável e discutível. No entanto, há um dever de consciência dele, como cristão e como padre, de veicular a doutrina do Evangelho, ainda que tal cause escândalo a todos os que preferiam uma igreja “glicodoce” e muda diante dos problemas da sociedade.

N/D
10 Mar 2005

Foi com algum sentimento de espanto que assisti, há alguns dias, a um conjunto de manifestações sociais, políticas e até opiniões de pessoas religiosas, a propósito da publicação em jornais, por um sacerdote Franciscano, de um suposto “aviso aos interessados”, sobre as medidas que o mesmo sacerdote pretenderia tomar no que concerne à distribuição da comunhão nas Eucaristias a que presidisse.
Digo com espanto, não tanto pelo que de novo o mesmo aviso veio trazer ao conhecimento das pessoas, mas sim pela reacção, em alguns casos primária, que provocou em vários quadrantes da sociedade portuguesa.

De facto, o mesmo sacerdote, invocando o cânone 915 do Código de Direito Canónico em vigor para a Igreja Latina, vem afirmar que pretenderia recusar a comunhão eucarística àqueles que tivessem praticado actos de si aptos a integrarem o que tal preceito canónico refere. Importa, por isso, antes de mais, saber o que diz o cânone, para não acontecer, como é costume em Portugal, toda a gente começar a opinar sem ter lido ou conhecer o aquilo sobre que emite opinião.

Diz o texto: Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto. Este é o texto da lei do qual importa retirar consequências. Em primeiro lugar que a recusa da comunhão deverá ser aplicada em caso de excomunhão pública ou de interdição, desde que não tenha havido reconciliação.

Em segundo lugar que a tanto, as penas canónicas maiores, devem ser equiparados os que, de forma obstinada permaneçam e perseverem em pecado, isto é, numa situação, antes de mais, de ruptura com o próprio Deus, da comunhão com Ele, e de ruptura com a comunhão da própria Igreja.

Não faz sentido, de facto, que alguém esteja numa situação de ruptura, não esteja em comunhão doutrinal, espiritual e, sobretudo, vivencial, e se aproxime da comunhão eucarística por hábito, prática rotineira ou costume social. Não faz sentido que se privatize a fé e a prática religiosa ao ponto de cada um se arvorar em único juiz da sua consciência, afirmando, como se viu nestes dias, que das suas relações com Deus cada um é que sabe.

A isto chama-se vivência egoísta da fé e é uma falsa interpretação do Evangelho cuja finalidade é única e exclusivamente de auto-justificação. Como exemplo, ainda que limitado, costumo apresentar aquela realidade, tantas vezes ouvida na boca de tantas pessoas: “eu confesso-me directamente a Deus, não preciso da Igreja”. Eu pergunto: então para que é necessário a esses irem comungar à Igreja? Cada um tem direito, na liberdade de criatura, a uma relação de intimidade com Deus onde Ele se revela. No entanto, ninguém pode afirmar, sob pena de afirmação falsa, que da sua prática religiosa só ele e Deus têm que saber.

Por outro lado, achei interessante que vários não cristãos ou confessamente ateus ou agnósticos tenham vindo manifestar-se, de forma tão contundente, contra a publicação de tal sacerdote, ao mesmo tempo que, cheios de sabedoria doutrinal, faziam interpretações teológicas e canónicas de grande alcance. Sei bem que a tais manifestações está subjacente o tema do mesmo “aviso”. É bom que tomemos consciência que a temática do aborto ou, para ser mais suave nos termos e politicamente mais correcto da interrupção voluntária da gravidez (para alguns IVG) está de novo aí em cima da mesa.

Não podemos ser coniventes com as tentativas de transformar tal discussão numa discussão religiosa, porque de facto não o é. No entanto, os crentes não devem ter medo de, com verdade e desassombradamente, denunciarem as políticas e as tomadas de posição que atentam contra a dignidade humana, seja em que circunstância for, sob pena de, para quem o aceite e o creia, pecar por omissão.

Poder-se-á dizer: os meios usados pelo sacerdote em questão não terão sido os melhores. É, de facto, questionável e discutível. No entanto, há um dever de consciência dele, como cristão e como padre, de veicular a doutrina do Evangelho, ainda que tal cause escândalo a todos os que preferiam uma igreja “glicodoce” e muda diante dos problemas da sociedade.

Por fim, há que dizer, com verdade e desassombro, que a Igreja não impõe nada a ninguém. Não pode nem deve. Apenas tem a missão de propor uma doutrina que não é sua, é Cristo. No entanto, quem quer assumir a proposta, não pode moldá-la à sua imagem e semelhança, adaptando-a a seu prazer, de modo a que a consciência fique sempre salvaguardada.

Se tanto se reclama que a Igreja intervenha publicamente na defesa dos direitos humanos, porquê querer negar-lhe o direito a tomar posição sobre o direito humano mais elementar que é o direito à vida?

Já assisti a situações em que a Igreja fez do direito canónico tábua rasa, quando o devia ter aplicado, em nome da verdade e da justiça. Não se lhe peça que faça o mesmo nestes casos e aceite como verdadeira a comunhão de quem recusa a comunhão e quer comungar.




Notícias relacionadas


Scroll Up