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Nem tudo na política é político

Nem tudo na política é político. Há muita coisa que parece, mas não é. Senão, repare-se nisto: passadas as eleições e o ritual da celebração de vencedores e vencidos, uma olímpica acalmia social desceu sobre o país.

N/D
9 Mar 2005

Quem via as televisões, ouvia as rádios e lia os jornais e compara com o que se passa hoje – e já lá vai mais de uma semana – nem parece que vivemos no mesmo país: tudo continua calmo e sereno como se nada tivesse acontecido.
Comparada esta acalmia profunda, em que parece que deixou de haver problemas sociais e económicos no país, com a dramatização e excitação social levada ao extremo que se passou até ao dia 20 de Fevereiro, tem de se concluir que algo se passava para além dos reais problemas.

1. A dramatização da crise. Uma primeira conclusão é que há duas realidades em causa: a realidade da crise real e a realidade da dramatização social que dela se fez para atingir determinados objectivos.

Se a crise não fosse real, qualquer observador estranho ao fenómeno seria levado a acreditar que a excitação social que se viveu até ao acto eleitoral muito se ficou a dever ao efeito concertado da comunicação social que explora exaustivamente o lado emocional destes acontecimentos e lhes dá uma dimensão subjectiva que não corresponde à sua dimensão objectiva.

E quando o balão emocional se fura ou o acontecimento se esgota, as coisas ficam reduzidas a pouco e as pessoas ficam boquiabertas de admiração e desencanto. Se a comunicação social não tivesse explorado emocionalmente até à exaustão este acontecimento, ele teria a mesma dimensão que tem hoje mas nunca tinha atingido o dramatismo que atingiu.

E será que valeu a pena? Será que esse dramatismo ajudou a resolver os problemas reais? Que ajudou a criar roturas sociais ninguém tem dúvida; agora se elas vão contribuir para solucionar os problemas reais, isso logo se verá. Esperemos que sim.

2. Quem fez e porque fez essa dramatização? Naturalmente que esta dramatização social não é inocente. Quem a preparou e alimentou tinha os seus objectivos. E conseguiu-os. Quais são esses objectivos? Resolver os problemas sociais, tomar o poder ou ambas as coisas?

Obviamente, que a tomada do poder é a motivação imediata e mais forte. E, depois, tem de se fazer alguma coisa para resolver os problemas reais, na sua perspectiva ideológica.

Resta-nos esperar para ver como vai ser resolvido o definhar da produtividade, a crise do desemprego, a insaciável despesa pública que nos empobrece noite e dia, o encerramento constante de empresas e os desempregados que ficam à míngua de pão, a deslocalização de empresas para outras paragens onde a mão de obra seja mais barata, os grandes problemas da máquina do estado…

Estes é que deveriam ser os objectivos prioritários da luta política. Não sei se foram.

3. Demonizar os culpados. Como sempre e cumprindo os rituais dos mecanismos da psicologia de massas, tratou-se de apresentar culpados, condená-los na praça pública e demonizá-los, em vez de se analisar as causas do mal estar social e a sua gestão e apresentar projectos de soluções.

Isso é que tinha de ser feito antes, para que o voto não continue a ser no escuro e na mera simpatia pessoal ou partidária. A nossa democracia tem que evoluir nesse sentido. A multidão julgou os que sentiu culpados, lançou sobre eles os seus anátemas de condenação.

Cumpriu-se o ritual. Fez-se a catarse pública. E todos ficaram tranquilos.

Os vencedores tomaram o lugar dos vencidos. E tudo voltou à normalidade e à paz social. Já podem sossegadamente voltar a falar de futebol, ir dançar toda a noite nas discotecas, passar férias no estrangeiro.

Tudo corre como dantes, excepto para aqueles a quem a crise queima realmente as mãos, para aqueles a quem o desemprego bate à porta e lhes falta o pão para os filhos.

4. A maioria silenciosa. Também, como de costume, a maioria dos eleitores recenseados ficou em silêncio. A maioria silenciosa. Cerca de 35% dos eleitores não votaram.

Não se sabe porquê, mas talvez uma das causas seja este tipo de pseudo-participação política a que estão condenados pelos seus representantes que fizeram a Constituição e que em seu nome lhes reservaram apenas fazer uma cruzinha de 4 em 4 anos num papel e metê-lo num caixote a que chamam urna.

A palavra urna remete para uma realidade bem triste: a morte. Aqui não será bem o caso, mas lá que é triste a “participação política” do povo, isso é.

5. Os históricos do protesto social. Quem tenha memória e participação no 25 de Abril, sabe quem são os históricos donos do protesto social. A maioria silenciosa, como o nome diz, não é.

A maioria da classe média também não é. São sempre grupos que se dizem de esquerda os que mais protestam e não desarmam enquanto não virem consagradas em voto as suas pretensões. Clamam. Chamam a atenção. Vão para a rua.

E sabem que, de um modo geral, a comunicação social delira com essas manifestações contra qualquer coisa, tantas vezes confundindo a árvore com a floresta, tomando a parte pelo todo. Repare-se que a maioria das notícias ou são desgraças naturais ou são pequenas manifestações contra a ordem maioritária estabelecida.

Da maioria que leva uma vida dentro do estilo comum ninguém fala. Das coisas positivas que acontecem ninguém ou raramente se fala. Se ao menos se falasse dessas borbulhas sociais de protesto mas enquadradas dentro do seu contexto e da sua dimensão, isso já seria aceitável.

O que não é aceitável é fazer delas a notícia constante, porque se lhes está a atribuir o lugar dominante na sociedade. Ao fazê-lo, a comunicação social está a promover a permanente revolução social baseada em minorias da população. É uma espécie de maoísmo disfarçado com a sua revolução cultural permanente.

Já sabemos como é: as notícias nunca são inocentes. Quem as faz vê-as pelos óculos do seu sentimento e da sua ideologia e procura que elas apresentem um impacto forte para mostrarem valor. A vítima é o incauto leitor, ouvinte ou espectador.

Realmente, nem tudo o que reveste um acontecimento político é política, o que, visto no inverso, dá mais força à expressão de que, em política, o que parece é. Neste acontecimento eleitoral, muita coisa pareceu política e foi tomado como tal, mas era outra coisa.

E isso é que é preciso tornar claro para que a emoção não continue a tomar o lugar da razão e o povo fique à mercê de habilidades de quem o pretende manipular.

Espremida toda esta encenação social feita à volta das eleições, através do teatro que delas se fez e onde os espectadores vibraram sem saber porquê nem para quê e no fim se sentiram aliviados, sobrou o que há hoje: tudo está calmo à espera que a crise se resolva, sem saberem como, porque ninguém exigiu sabê-lo.

Os outros que façam e decidam por nós.

Por mim, não concordo com esse atestado de menoridade.




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