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O pensamento político e os partidos

A história, contudo, demonstra que as ideias acabam por chegar aos partidos – embora muitas vezes lá cheguem por estradas secundárias e atrasadas – e que o povo, sempre sábio, acaba por castigar os desvarios

N/D
8 Mar 2005

O voto dos Portugueses nas eleições legislativas de 20 de Fevereiro último provocou um pequeno terramoto nas primeiras semanas do novo ciclo político.
À esquerda e à direita, por razões diversas, a polémica em torno do fundamento e da natureza do pronunciamento popular começa a conduzir, ultrapassado o choque inicial, a uma reflexão abrangente sobre a redefinição do papel e do posicionamento dos partidos no espectro político e, consequentemente, à actualização de projectos políticos e a uma natural ponderação do equilíbrio – nem sempre estável – entre os variados contributos ideológicos e doutrinários que enformam a base do pensamento de cada um dos partidos.

Deve afirmar-se, em bom rigor, que este fenómeno não é exclusivo das últimas semanas. Ele é uma das maiores virtudes das democracias pluralistas, ao provar que as ideias, as pessoas, os partidos e os regimes estão vivos.

Neste contexto, a nossa jovem democracia não é excepção: a reflexão democrática em torno dos posicionamentos dos partidos no espectro político foi responsável, entre outros, pelo nascimento da social-democracia “à portuguesa” de Sá Carneiro, ou pelo surgimento da Aliança Democrática como projecto de evolução de Portugal para uma verdadeira democracia de tipo ocidental, livre da instabilidade do poder militar e das intenções revolucionárias da esquerda radical no final dos anos setenta, ou ainda pelo facto de Soares ter metido “o socialismo na gaveta”, ou então pelas querelas fratricidas entre ortodoxos e renovadores no seio do PCP.

Mais recentemente, se quisermos, podemos enunciar a evolução e o amadurecimento do CDS/PP, sob a liderança de Paulo Portas, durante a participação no governo de coligação, a consciencialização do PSD de Durão Barroso dos desafios do centro-direita na governação do país e até da própria exigência de um entendimento nesse espaço político e o profundo debate no espaço do Partido Socialista, iniciado por Mário Soares durante o consulado infeliz de Ferro Rodrigues, que conduziu à liderança de Sócrates, numa clara escolha de retorno ao caminho da Terceira Via em detrimento do velho socialismo democrático e das influências da chamada nova esquerda do Fórum Social, alter-mundialista e anti-globalização.

No entanto, é curioso notar que, quer à esquerda, quer à direita, o debate político essencial não se realiza pelo normal funcionamento dos fóruns partidários, originando-se, pelo contrário, sempre fora desse espaço que deveria ser, por definição, o de encontro de ideias e vontades nos partidos.

Assim, de uma observação empírica da realidade podemos facilmente concluir que, para os partidos que formam governo são, em regra, as exigências da governação que incutem nas cúpulas partidárias a moderação e o realismo do discurso político, bem como a seriedade do discurso e a necessidade do diálogo inter-partidário, enquanto os “boys” dos aparelhos partidários se divertem na prazerosa actividade de ocupação selvagem da máquina estadual, inebriados pela bebedeira do poder e imunes a qualquer tipo de reflexão.

Foi o que aconteceu nestes dias com o PS.

De facto, enquanto José Sócrates trabalhava para montar serenamente um governo credível e equilibrado e para afirmar a especificidade do seu estilo de liderança face ao de Guterres, a estrutura distrital de Braga do PS não levou vinte e quatro horas a pedir cabeças de pessoas ilustres que serviram o país e o distrito, na ânsia desmesurada, quem sabe, de começar a cumprir o “compromisso” de criar 150000 postos de trabalho durante esta legislatura.

O resultado está à vista: Sócrates conseguiu, na formação do governo, interpretar os resultados das eleições, escolhendo um executivo suficientemente centrista e moderado para ir de encontro ao voto popular e suficientemente de esquerda para ser do PS, sabiamente temperado de gente oriunda de vários sectores da sociedade e de várias tendências do PS, com o melhor do guterrismo e sem o pior do guterrismo (salvo alguns – poucos – erros de “casting”, como Alberto Martins na Justiça), aberto a independentes; por seu turno, a distrital do PS conseguiu, menos de um dia depois das eleições, mostrar a voragem do PS pelo aparelho do Estado e reavivar os fantasmas do pior socialismo de que há memória.

Por outro lado, os partidos que atravessam crises de liderança ou de resultados tendem a fechar-se sobre si próprios na busca de uma solução interna que garanta, antes de mais, segurança e resultados, demorando a ouvir os ecos do intenso debate que corre, por norma, no espaço comunicacional tradicional (jornais, rádios e televisões) e nesse maravilhoso fórum alternativo que cada vez mais é a Internet.

Desta forma, enquanto se assiste à afirmação de um novo liberalismo progressista de centro-direita e à reflexão sobre os significados e desafios actuais da democracia- cristã e da social-democracia, bem como a um intenso debate clarificador sobre o regresso às origens do PSD como solução sólida e abrangente de governo ou sobre o futuro do CDS como partido que, definitivamente, cresceu e abandonou o populismo que marcou alguns períodos da sua história, as estruturas partidárias insistem em repetir velhas fórmulas e em reeditar velhos consensos estéreis, que são castradores do debate interno e que agravam mecanismos de seguidismo acéfalo que são o cancro do sistema partidário que temos.

A este propósito, a anedota do envio da fotografia do Prof. Freitas do Amaral para a sede do PS – classificada, e bem, como uma “garotice mal-educada” – é uma prova de que no interior do meu CDS ainda é preciso lutar contra uma certa demagogia trauliteira e infantil.

Por maior desilusão que tenha sido Freitas, há coisas que um partido maduro, sereno, responsável e inteligente não pode fazer.

Em suma, há legítimas preocupações sobre a (in)capacidade dos partidos de se afirmarem como espaços de criação de pensamento político. Há muito a mudar num sistema que, ainda assim, é o mais perfeito que conhecemos.

A história, contudo, demonstra que as ideias acabam por chegar aos partidos – embora muitas vezes lá cheguem por estradas secundárias e atrasadas – e que o povo, sempre sábio, acaba por castigar os desvarios.




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