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Reflectindo

O perigo maior da democracia não são os seus opositores directos, é o abandono da participação democrática que de todo denuncia conformismo

N/D
7 Mar 2005

Democraticamente, o “partido da abstenção” é a segunda força política deste pais. Nem é de estranhar, há muito que é assim. Julgamos que apenas nas primeiras eleições livres, depois do derrube do Estado Novo, não foi assim.
Nessa altura a afluência às urnas transformou-se num caudal de fé na mudança e de alegria democrática incontida. Os cravos vermelhos floriram as lapelas e os rostos traziam nos sorrisos a esperança. Porquê, então, agora é diferente, perguntaremos uns aos outros?

E a resposta tem vários argumentos segundo os ângulos por que os observemos. O facto real e incontroverso é que existe no país mais de dois milhões e meio de eleitores que se estão nas tintas para quem venha a ser o governo que os há-de governar. Não nos podemos contentar com o abrandamento das últimas eleições.

Não sei se há ou não há estudos sobre quem são os absentistas, a que faixas etárias pertencem e onde estão as localidades com maior expressão de não alinhados. O que sabemos é que a democracia tem esta doença e não encontra remédio ou terapêuticas adequados para a tratar. É que por trás destes números existem pessoas, rostos humanos, quereres e vontades que encarnam aspirações, desejos e necessidades.

Não são, pois, índices frios ou sem alma aqueles que se não expressam através do voto. Quem são, então, esses sujeitos? Por que razão se abstêm? Ora aqui está um trabalho do foro da sociologia que poderia dar-nos algumas respostas. Poderia tornar-se adequado para alunos desta área de saber. Interessaria conhecer quais as causas remotas e profundas que levam à abstenção. Serão pessoas que vindo dum passado sem direitos de escolha persistem na teimosia de se deixarem nesse passado? Serão pessoas desiludidas das promessas dos políticos?

Serão idosos a quem o governo nada lhes diz porque por eles nada fazem? As políticas são só para os novos e, mesmo este, não querem saber? Existirá alguma convicção mais profunda sobre a inutilidade da escolha porque, ao fim e ao cabo, “sempre tudo fica na mesma”? Os governos são como os pássaros de arribação: vão sempre parar aos mesmos ninhos? Há tantos trabalhos universitários sobre a “pinta do olho” que não valem senão pelo estudo das causas últimas das coisas.

Ao invés, bem poderiam ser direccionadas para casos concretos, como a abstenção. Dariam uma verdade a esta parte oculta da realidade política portuguesa, quiçá mundial; levantariam o véu desta opacidade e demonstrariam as causas reais da abstenção em Portugal.

A metodologia é fácil de encontrar e para público alvo bastava escolher as freguesias tipo, as que servem normalmente para as previsões dos resultados eleitorais. Porque não? Porque não investigar o que tem interesse investigar? As variáveis em presença são bastante concretas e não deixariam margem a grandes parasitismos. Uma coisa nos parece certa: não deveríamos deixar de estudar este fenómeno do absentismo porque poderemos estar a correr o risco de o deixar transformar-se em doença crónica.

O perigo maior da democracia não são os seus opositores directos, é o abandono da participação democrática que de todo denuncia conformismo. É esta fraqueza de braços caídos para discutir aquilo que deve ser constantemente questionado, a própria democracia, que pode arruinar o sistema democrático. Chama-se a isto apodrecer por dentro.




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