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A remar em conjunto

Num país como Portugal onde dois terços das Dioceses são de incidência marítima, ainda se nota pouca sensibilidade – mais correctamente deveremos dizer: muita insensibilidade – ao “lugar teológico” do mar como espaço da revelação de Deus e como oportunidade de evangelização sempre viva e actual

N/D
7 Mar 2005

Remamos em conjunto». Foi com esta frase que um padre da Corunha resumiu o terceiro encontro dos responsáveis do “Apostolado do mar” de França, Espanha e Portugal, que se realizou de 28 de Fevereiro a 2 de Março em Leça da Palmeira.
Este encontro serviu para reflectir sobre a temática da evangelização da afectividade, reportando-se à dimensão da religiosidade popular no mundo marítimo, concretamente através das procissões e catequeses de rua (algumas com mais de vinte anos de vivência) com que muitas das paróquias marítimas vivem e testemunham a sua fé cristã.

Respigamos algumas das fa-cetas elencadas, sobretudo nessa visão simples, interpelativa e profunda de monsenhor Pierre Molères (bispo promotor do “Apostolado do mar” em França, que esteve presente em todo o encontro): «aprender em comum a conhecer-nos, conhecer melhor a situação marítima atlântica; a importância da informação mútua e a maneira diferente de evangelizar a realidade marítima; ser capaz de unir e consertar as nossas maneiras comuns de actuar».

De facto, percebemos que, num país como Portugal onde dois terços das Dioceses são de incidência marítima, ainda se nota pouca sensibilidade – mais correctamente deveremos dizer: muita insensibilidade – ao “lugar teológico” do mar como espaço da revelação de Deus e como oportunidade de evangelização sempre viva e actual.

– Onde estão os planos e programas pastorais, diocesanos ou paroquiais, que tenham o mar e as suas implicações como pano de fundo e as iniciativas condizentes com este espaço da presença de Deus e de evangelização/catequese?;

– Já se descobriu que ser pároco numa estância marítima (de pesca, com praia ou desportos de recreio sobre as águas) é diferente de ser pároco num espaço rural ou mesmo industrial?;

– Até onde vai, nos Seminários e Faculdades de Teologia, a ousadia em ver as coisas da fé pela lente da vida do mar e daqueles que nele trabalham?;

– A marinha mercante – esse imenso sector de actividade humana, económica e religiosa – vai continuar a ser o parente desprezado da pastoral do mar, sobretudo em portos como Lisboa e Sines, agora que os “Stella maris” de Leça e Aveiro estão a ser renovados?

Estar em dinâmica marítima é muito mais de que fazer procissões com símbolos marítimos ou até percorrendo com imagens de santos algum espaço com água. Estar em “apostolado do mar” é inspirar a maresia e deixar-se insuflar de espírito com sabor a sal, percebendo as repercussões da fragilidade humana sobre as tormentas sobre o mar, tanto nas horas de boa pesca como nos momentos de tragédia.

Aquilo que vem sendo feito em Portugal, sobretudo desde a Expo/98 – foi por ocasião deste evento que começamos a estar nesta dinâmica pastoral -, e conjuntamente com Espanha e França, tem sido de uma grande riqueza de partilha, amizade e descoberta. Esperamos que o próximo bispo promotor do “Apostolado do mar” em Portugal tente entender melhor o que está a ser feito, sem grandes reivindicações ou tentativas sindicalistas.

Esperamos que dos esforços já encetados possamos, a curto prazo, dinamizar leigos marítimos, assumidamente cristãos, para que possam ser dignos interlocutores junto das entidades e organismos nacionais e europeus. Afinal, a Igreja Católica precisa de acarinhar muito mais este sector da pastoral… dignificando todos quantos nele trabalham, dele vivem e nele se comprometem.

Vamos continuar a remar juntos e para o mesmo lado!




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