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O Código da Vinci totalmente ignorado

Em determinadas editoras, o que interessa num livro é apenas saber se ele, tal como um detergente ou um iogurte, se presta a uma boa campanha de marketing. Tudo o resto é supérfluo

N/D
6 Mar 2005

Sei pouco sobre O Código da Vinci. Sei que tem 544 páginas, incluindo páginas em branco; sei que se organiza em cento e cinco capítulos, a que se acrescentam alguns agradecimentos, um “facto”, um prólogo e um epílogo; sei que na contracapa há um texto que começa por dizer que «a Bertrand edita O Código da Vinci, um impressionante êxito mundial em que Dan Brown se revela um génio criativo não só a nível do suspense mas também da própria complexidade do enredo» e que termina indicando o momento a partir do qual «tudo se complica»; sei, finalmente, que pesa 775 gramas. Sei isto tudo e mais duas ou três coisas igualmente irrelevantes porque um amigo fez o favor de me emprestar o famoso best-seller. No que diz respeito ao conteúdo, ainda não sei o que distingue O Código da Vinci de uma embalagem de Blanka Oxi Action Max.
Não sei e não tenciono sabê-lo. Ignorar completamente o que Dan Brown escreve é apenas um preconceito, cultivado, aliás, com um certo gosto. Como o preconceito é extensivo a tudo o que ataca, defende, codifica, descodifica, ou, simplesmente, recenseia O Código da Vinci, permanecem misteriosas as razões por que estas 775 gramas de intriga foram adquiridas por 350 mil almas em Portugal e 17 milhões de espíritos em todo o mundo. Não poderei, por isso, saber se concordo ou discordo dos lugares-comuns, que, por exemplo, sustentam que «o livro é fraquinho, mas fala de questões que tocam às pessoas» ou que «o livro tem uma trama romanesca não desprovida de interesse, mas aborda certos temas de um modo bastante aldrabado».

O meu total desinteresse pelos escritos de Dan Brown vai, agora, impedir-me de opinar sobre Anjos e Demónios, que, na semana que acaba de terminar, chegou às livrarias portuguesas. Durante os próximos tempos, não escassearão as almas que explicarão por que é que, ao contrário do que outros sustentarão, Anjos e Demónios é uma obra muito menos bem conseguida do que O Código da Vinci. Como quem fala do desempenho do Futebol Clube do Porto e do Sport Lisboa e Benfica no terreno do jogo, vários escribas perorarão sobre o modo como Anjos e Demónios e O Código da Vinci jogam no terreno da literatura e das vendas. Por mim, apenas pretendo saber se Anjos e Demónios pesa mais ou menos do que as 775 gramas de O Código da Vinci.

A editora portuguesa das duas pesadas obras, a Bertrand, garante que, apenas durante este mês, se venderão 70 mil Anjos e Demónios. A meio da tarde de quinta- -feira, segundo escrevia Joana Gorjão Henriques no “Público”, a editora já tinha recebido pedidos de várias livrarias para reposição da obra de Dan Brown que tinha sido colocada à venda no mesmo dia. A jornalista não diz, mas supõe-se que os pedidos de reposição se façam em número de exemplares e não em quilos.

«Neste momento, a nossa literatura está sujeita à bertrandização. A esperança do best-seller é o motor editorial das editoras portuguesas mais hegemónicas. E já nem sequer subsistem traços de manter as chamadas colecções de prestígio (como as de poesia ou de ensaísmo mais especializado), com o que se disfarçava a vergonha de só publicar o mais ou menos oficial ou promocionado», escrevia, há cerca de vinte e cinco anos, Joaquim Manuel Magalhães em Os Dois Crepúsculos (Lisboa: A Regra do Jogo, 1981). Nessa obra, que recolhia artigos publicados na imprensa sobre a poesia, o poeta e ensaísta insurgia-se contra a Bertrand e o que ela e outras editoras – que «vivem de puras acções do mais energúmeno capitalismo» – representavam.

«Uma casa editora tem obrigações culturais, não pode ser uma mera fábrica de livros na mira do best-seller», dizia Joaquim Manuel Magalhães. Ela pode, evidentemente, publicar livros populares e «tem direito a esses lucros para subsistir e poder pagar condignamente aos que nela trabalham e dela vivem».

No entanto, «necessita de acompanhar essa tarefa lucrativa com um esforço de publicação do novo, daquilo que pela sua própria natureza inovativa não tem ainda um público, ou daquilo que, por mais complexo, nunca atingirá um público muito vasto porque menos especializado». A recomendação foi ignorada. Em determinadas editoras, o que interessa num livro é apenas saber se ele, tal como um detergente ou um iogurte, se presta a uma boa campanha de marketing. Tudo o resto é supérfluo.




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