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Vitória não merecida de Sampaio, das sondagens e dos “barões”

1- Uma questão de pura matemática – Entre muitos outros, nós próprios advertimos de que, se o PSD e o PP concorressem separados às eleições de Fevereiro, o PS ganharia.

N/D
5 Mar 2005

Tal pode ler-se no n.° 6 do trabalho que publicámos neste cada vez mais prestigiado Diário do Minho, no dia 25 de Dezembro de 2004, na pág. 3. O artigo tinha o título “PSD retribui aquele favor de Guterres a Barroso” e por acaso saiu com algumas gralhas (que o próprio DM teve depois a amabilidade de rectificar).
A coligação PSD-PP estava a trabalhar em perfeita harmonia e tinha uma sólida maioria parlamentar. Interrompida no seu trabalho pelo dr. Sampaio (de uma forma que pode no futuro constituir um perigoso precedente anti-democrático) essa coligação deveria ter-se apresentado ao acto eleitoral de Fevereiro como uma coligação. Se ela própria se desfaz, logo aí começou a dar vantagem aos seus adversários. E eventualmente, a dar-lhes a razão que eles não tinham.

Além disso, é uma lei básica da Matemática que uma soma é sempre maior que qualquer das suas parcelas. E era certo e seguro que, mesmo que os votos do PSD e PP fossem superiores no seu conjunto aos do PS (coisa que nem por sonhos veio a acontecer!) o dr. Sampaio nunca os chamaria para voltar a formar governo, desde o momento em que o PS fosse (como foi) individualmente o partido mais votado. Os eleitores da coligação deveriam ter o direito de saber quem inventou tão ruinosa quão patética estratégia.

A coligação deveria ter dito assim: “somos uma coligação e como coligação nos apresentaremos ao sufrágio, para o bem ou para o mal”. Os portugueses ainda sabem dar valor a estes gestos cavalheirescos. E estou mesmo certo de que só nessas condições poderiam ganhar.

2 – Sondagens até à véspera – Objectivamente, uma sondagem favorável é a melhor propaganda em favor do partido visado. É por essas e por outras que a divulgação de sondagens deveria ser proibida (como já o foi) nas 2 ou 3 semanas anteriores ao sufrágio. A influência das sondagens sobre o voto de muitos eleitores pode ser mesmo decisiva, sobretudo entre os indecisos. Para muitos destes uma eleição é como um totoloto, como um totobola e o mérito está em “acertar” no partido vencedor. Se a sondagem lhes “diz” antecipadamente qual é o partido vencedor, eles ficam muito agradecidos e lá vão eles, todos contentes, votar no partido vencedor.

E já se podem depois gabar, aos amigos, de que “acertaram”… Para esta gente, conhecer as sondagens é mais ou menos o equivalente a jogar com múltiplas no Totobola. Entretanto, o partido “declarado” vencedor pelas sondagens fica também muito agradecido, pois a sua votação sai assim acrescida pela maré dos votos destes “eleitores apostadores” indecisos.

Mas em certos casos, também entre os eleitores mais esclarecidos o efeito da divulgação das sondagens pode ser nefasto. Por exemplo quando, como desta vez aconteceu, é “decretada” logo à partida, uma vantagem enorme de um partido (o PS) sobre o outro (PSD). Muita gente que votaria no partido “derrotado” nem se vai dar ao trabalho de ir votar, porque as sondagens já “decretaram” que não vale a pena.

Se a isto acrescentarmos que o universo dos sondados não passa geralmente de 1000 ou 2000 pessoas e que mesmo assim esta actividade goza de um prestígio pseudo-científico… Quando na realidade a sua principal força, o seu mortífero impacto consiste apenas na sua divulgação. Funcionam subconscientemente como umas “eleições antecipadas”, como propaganda do “partido vencedor”. E se forem autorizadas até à véspera do sufrágio, então estamos conversados…

3 – O Iraque e a reacção ao “Liberalismo selvagem” – A decisão do PSD e PP de concorreram separados foi ainda mais errónea na medida em que estes 2 partidos não se aperceberam de que nos últimos anos houve algum deslizamento para a Esquerda no sentido geral do voto. Por várias razões. Primeiro, porque a população está um pouco mais pobre e endividada do que há uns anos atrás e parte dela vai começar outra vez a ficar seduzida pela ideologia socialista.

Segundo, porque se muitos já discordavam (e bem) do modelo liberal para a Economia, esses e outros ficam agora abismados perante os píncaros a que alguns irresponsáveis têm conduzido este modelo (abolição de fronteiras europeias e de taxas aduaneiras, “globalização”, concentração capitalista, desvalorização dos sindicatos, impunidade dos tráficos de droga e de seres humanos, estagnação do pequeno comércio, invasão de produtos estrangeiros, etc., etc.).

As irresponsáveis agressões americanas ao Iraque e à Sérvia, a 1.ª das quais explicitamente apoiada pelo desastroso consulado de Durão Barroso, ajudaram também à adesão aos ideais (teoricamente mais pacifistas) do Partido Socialista.

4 – Um boato tardio – O eng.º Sócrates correu pressuroso a enfiar um barrete que, parece, nem lhe era dirigido, ao menos do modo em que ele o entendeu. A insinuação do dr. Santana era suficientemente vaga e elegante. E referia-se apenas aos apoios (“colos”) que o futuro 1.° ministro teria tido na sua recente visita a Bruxelas.

Porém e em abstracto, as inclinações sentimentais ou os hipotéticos vícios dos altos governantes não escaparão facilmente (nem deverão escapar) ao escrutínio popular, na medida em que elas possam perturbar ou prejudicar a necessária independência e liberdade de acção desses altos governantes. Para que os “príncipes” não possam ser alvo de chantagens e os povos não sejam defraudados. A vida particular dos príncipes interessa ao Povo, na medida em que possa influenciar a governação. Diziam até os antigos que “à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo”. Quanto mais ao próprio César.

5 – As demissões de Santana e de Portas – Se eu estivesse no lugar de Santana Lopes na noite das eleições, não teria, como ele humildemente o fez, assumido a 1.ª responsabilidade do desaire eleitoral. Diria apenas isto, aos numerosos barões do partido que se deixaram ficar traiçoeiramente na praia: “meus senhores, este “lustroso” resultado de 29% é vosso; demito-me, um dia me voltareis a chamar”. Um aparelho partidário que não apoia o partido numas decisivas eleições legislativas é outro precedente perigoso, uma vez que instaura a confusão e a descrença entre os militantes, debilita o partido, faz apodrecer a própria Democracia e promove a deslealdade como atitude desculpável.

Já a demissão de Paulo Portas, essa não tem “pés nem cabeça” e percebe-se apenas como um anseio por curtas férias. Merecidas por um político de mérito, cujo espírito de missão o fez “engolir sapos vivos”, desde Barroso à guerra do Iraque. Um homem incessantemente atacado ao longo de década e meia por todos os “cães de fila” do Sistema. Portas sabia bem que iria ser vítima do quase desesperado voto útil no PSD (daí o seu irónico e sarcástico “outdoor”…).

Uma vez que o PSD era o único que poderia disputar o 1.° lugar com o PS. Baixar de 9 para 7,5 foi, assim, até um bom resultado. Se o trotzequista e inefável BE quase chegou aos 6,5% isso não é culpa de Portas, mas da sub-cultura alienadora, diabolizante e anti-Natureza que a “longa manus” dos de New York conseguiu inseminar na maioria dos 300 000 novos votantes. Com rivais deste jaez, seja Jerónimo de Sousa também cumprimentado pelo seu bom resultado…




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