Fotografia:
Um olhar em redor

Vi um dia destes, na primeira página de um conhecido jornal lisboeta (semanário), estampada em termos destacados, salientes, e tendo como pano de fundo uma foto da nossa Assembleia da República em plena laboração, a seguinte notícia aqui resumida no que concerne ao essencial da mesma:

N/D
5 Mar 2005

«Vamos pagar uma fortuna a ex-deputados. Só em subsídios levam para cima de meio milhão de contos. Refere-se a mais de uma centena de deputados que vão deixar o Parlamento. Muitos após uma fugaz passagem pelo hemiciclo e até os que mal aqueceram o lugar têm direito a uns quantos milhares de contos…».
A estes, acrescento eu, juntar-se-ão ainda muitíssimos outros colocados em lugares de confiança do executivo cessante (governadores civis, directores-gerais, administradores de empresas, gestores, etc., etc.), conforme é normal sempre que a matriz política dos novos governantes é radicalmente diferente (será?) daquela a que pertencem os seus antecessores.

Há, pois, que indemnizar generosamente toda esta gente, parte da qual, é quase certo, terá outros postos igualmente compensadores à sua espera – à espera dos seus “sacrifícios” em prol deste povo que os suporta a todos com paciência infinita, como se de um anátema se tratasse visto que, volvidos 30 anos sobre o 25 de Abril, é esta a situação do país: penúltimo entre os 25 Estados da União Europeia em índice de desenvolvimento humano, penúltimo em produtividade, não se vislumbrando que melhore esta posição (verdadeiramente deprimente, para não dizer degradante), mesmo depois da entrada da Roménia e da Bulgária na UE.

Uma nota, entretanto, visando evitar que o leitor incorra em juízos precipitados pelo facto de eu ter aludido aos anos já decorridos sobre a denominada “revolução dos cravos”: além desse evento nos ter devolvido a liberdade de agir em conformidade com os nossos ideais, soltando também sem receio de represálias os nossos pensamentos, quis apenas salientar que não soubemos, todos, partidos naturalmente incluídos quaisquer que eles fossem, encaminhar o país na senda do progresso e do bem-estar geral como seria lícito aguardar-se, uma vez instaurada a democracia e derrubada a ditadura que vigorou entre nós durante cerca de meio século.

Trinta anos não representam sequer um segundo face à eternidade, mas é muito tempo na vida de um povo; pelo que, muitos dos governantes que temos tido apenas se notabilizaram por demonstrarem, a cada passo, a sua exuberante incompetência, podendo assim concluir-se que, salvo raras excepções, foi a mediocridade generalizada e triunfante (refiro-me à classe política, pois) que, revezando-se entre si, malbaratou não apenas todo este tempo mas, outrossim, as inúmeras oportunidades de ordem vária que a União Europeia nos concedeu (inclusive fundos avultadíssimos) e que ninguém soube aproveitar.

A crise profunda em que o nosso país mergulhou não é somente de ordem económica ou estrutural. É também, sobretudo, de natureza moral resultante de vários factores ligados entre si: uma taxa de desemprego calamitosa, um sistema de ensino péssimo, uma organização judicial ferida de morte (dois pilares fundamentais numa democracia digna desse nome), uma máquina pesadíssima ao serviço do Estado (função pública) com custos tremendos para o cidadão comum e que jamais alguém se atreveu a reformar, uma onda de corrupção alarmante, quase diria endémica, afectando largos sectores da vida nacional, a insegurança que todos pressentem em torno de si, a criminalidade instalada sem que sejam criados e postos em prática, rapidamente, os meios adequados para a combater.

E, por cima de tudo, atingindo a maioria dos portugueses, confrangedoramente, uma existência amarga, difícil, longe daquelas tradições familiares que quase se perderam por completo e se transmitiam de geração em geração…

E é tudo, por hoje.




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