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Habituem-se!

Para evitar percalços, convém, pois, começar já a preparar o terreno. E que melhor forma de começar senão atirando-se às pernas de um ancião já trémulo, mas, mesmo assim,um gigante na defesa dos valores mais perenes

N/D
3 Mar 2005

Já estávamos habituados a que o Santo Padre e a Igreja em geral aparecessem, em certa comunicação social e no pensamento dos ideólogos do esquerdismo dominante, como responsáveis primeiros pela propagação do SIDA – simplesmente porque não colocam máquinas de distribuição de preservativos nas igrejas nem advogam que toda a gente deva andar de caixa de preservativos no bolso, de modo a ter “sexo seguro” em qualquer ocasião; antes defendem a fidelidade conjugal, a abstinência sexual e outros “disparates” do género.
O facto de a Igreja estar na primeira linha no auxílio aos doentes com SIDA nada significa para eles – alguns até são capazes de desenvolver uma daquelas teorias da conspiração tão na moda, em que há sempre uns clérigos malvados empenhados em fazer todo o mal possível, para depois poderem aparecer como benfeitores da humanidade.

Se há um cómico muito conceituado em França que, falando a sério, explica os avanços do SIDA em África como resultado de uma conspiração sionista, não faltará muito para que o mesmo se diga da Igreja Católica…

Agora, e a propósito de um novo livro do Santo Padre (Memória e Identidade), avançou-se para um novo patamar: o Papa, inimigo da democracia e, quem sabe, um perigoso ditador disfarçado com boas palavras. Com um dia de intervalo, apareceram no Expresso e no Público duas prosas do tipo «a Igreja Católica não me interessa para nada, mas…».

«Mas…», num caso, o articulista, citando o livro do Papa (deve ser daquelas citações de ouvir dizer, pois o livro ainda não se encontra à venda em Portugal), consegue sintetizar o longo papado de João Paulo II nisto: a tentativa de repor o poder da Igreja sobre os Estados – a isto se chama «poder de síntese»!

E conclui alertando para o perigo que as democracias correm de se tornarem novas Arábias Sauditas, se não se puser um travão à perniciosa influência deste Papa e dos seus seguidores.

No outro caso, o “escândalo” repete-se em termos semelhantes, mostrando um Papa inimigo da democracia liberal, sonhando com uma teocracia medieval (que nunca existiu, pelo menos tal como é pensada no escrito em causa), e alentando as «heranças mais negras do catolicismo». «Que são muitas, como se sabe», acrescenta o autor, para que não restem dúvidas.

Afinal, qual é o problema? Ao que parece – digo assim porque ainda não tenho o livro em causa – o Santo Padre reafirma a doutrina, comum para quem estuda questões de ética e moral, segundo a qual a legalidade nem sempre coincide com a moralidade, mesmo se a lei em causa é votada por um parlamento eleito segundo as regras da democracia representativa.

De facto, a maioria não faz norma, quando se trata da lei moral. E pode a maioria legislar, num parlamento eleito democraticamente, o extermínio de uma minoria, sem que tal lei seja moralmente lícita e lhe seja devida obediência, por ser moralmente injusta.

A este propósito, cabe o exemplo do regime nazi, que chegou ao poder por via democrática, que legislou apoiado num parlamento «legítimo» e nem por isso as leis dele emanadas podiam ser acatadas, por serem imorais.

Ora, já na encíclica Evangelium vitae, o Santo Padre se atrevia a tocar numa “vaca sagrada” do politicamente correcto actual, falando da perversidade intrínseca das leis que liberalizam o aborto a pedido, mesmo se fruto de um parlamento democraticamente eleito; e insistia no direito e dever da objecção de consciência relativamente a estas leis e na obrigação de os católicos não darem o seu voto a partidos que as defendam e promovam.

E é aqui que as coisas se complicam.

Todos sabemos que, a curto prazo, teremos um novo referendo sobre o aborto. E o primeiro-ministro indigitado Sócrates já afirmou que é um referendo «para ganhar».

Eu, ingénuo, pensava que era para saber o que pensam os portugueses e que o governo saberia respeitar os resultados; mas não: é «para ganhar» – Sócrates dixit!

Para evitar percalços, convém, pois, começar já a preparar o terreno. E que melhor forma de começar senão atirando-se às pernas de um ancião já trémulo, mas, mesmo assim, um gigante na defesa dos valores mais perenes e na resistência aos novos totalitarismos disfarçados com roupagens democráticas?

Tão mal disfarçados, diga-se, que não conseguem esconder o que lhes vai dentro, sempre que alguém ousa pensar diferente – leva logo de intolerante, fundamentalista e taliban, que é para aprender a ter medo; e, se não chegar, ressuscita-se a inquisição…

Habituem-se!… Porque os tempos estão propícios.




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