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Mudança de acento na relação música-liturgia

Quarenta e dois anos após o primeiro documento do Vaticano II, precisamente sobre a Liturgia, a reflexão do grupo “Universa Laus” (Louvor Universal), nascido em Lugano, na Suíça, e que teve entre os seus membros fundadores nomes como J. Gelineau, L. Deiss, D. Julien, e que sempre foi constituído por músicos e liturgistas, continua a desenvolver a sua reflexão sobre as questões suscitadas pela música na liturgia.

N/D
2 Mar 2005

Em documento recente, o grupo já não coloca o acento na questão da música litúrgica, quanto ao estudo das suas formas, da sua funcionalidade e dos seus actores, mas vai realmente às raízes de tudo.
O acento é colocado na escuta, da qual realmente nasce o acto de canto em liturgia, para celebrar com um só coração e a uma só voz.

Do que realmente se trata, agora, é do homem que celebra em espírito e verdade, com os seus irmãos e irmãs, o Pai de Jesus Cristo. Do que agora se trata é do acto de celebração, da acção de graças actuando no coração, no espírito e no corpo de cada um, em comunhão com todos. Busca-se atingir o ser total e cada ser, quer ele seja o sacerdote presidente, o músico organista ou o salmista, o jovem fiel ou o menos jovem.

O documento que estamos a apresentar pela leitura de Philippe Robert no n.º 85 de “Signes – musiques” insiste sobre uma «maneira de ser» para que realmente se possa celebrar a liturgia cristã.

Este colocar do acento sobre a necessidade vital da escuta da Palavra apoia-se na tradição judaica do «Escuta Israel» e também no Salmo 44: «Escuta, minha filha, olha e presta atenção». Está ainda de acordo com o que nos recorda a antropologia: o ser humano toma consciência de si, escutando.

O ser litúrgico, o ser celebrante tem de começar por se colocar à escuta. Uma escuta vigilante. Intimamente relacionado com a necessidade de escuta vigilante está a questão do silêncio na liturgia. Como diz Victor Arbeloa: «O silêncio é o único rumor que Deus faz quando passa pelo mundo».

Por isso se diz também que a música nasce do silêncio e conduz ao silêncio. Pelo que, sem qualquer dúvida, é da qualidade do nosso silêncio interior, da nossa escuta vigilante, que nascerá a palavra e o canto. Não é, com efeito, a liturgia uma «modulação do silêncio?»

Esta maneira de ser é a que se pode aproximar de Maria, que meditava todos os acontecimentos no seu coração, que era oferenda total, disponibilidade total, para que nela tomasse corpo a esperança do Reino anunciado pela Palavra.

Fala-se mesmo da necessidade imperiosa de todos os actores da celebração e todos os servidores da Palavra terem um «ouvido litúrgico», a fim de que a escuta de toda a assembleia se proporcione o melhor possível.

Só depois de garantida esta atitude de permanente e vigilante escuta da Palavra, tem pertinência falar do acto de canto. Tal acto de canto só poderá ser libertado se a pessoa que o produz estiver realmente disponível pela escuta da Palavra.

O acto de canto, com efeito, tem um papel unificador, quer da pessoa, quer dos grupos humanos. Ele recorda-nos que esta unanimidade se realiza no Espírito para edificar o Corpo de Cristo. Com efeito, cada eucaristia convida-nos a que cantemos numa só voz a santidade de Deus.

Cantar conjuntamente supõe que nos escutamos reciprocamente, que estamos à escuta dos outros. Se realmente estivermos à escuta dos outros na liturgia, por que não o estaremos na nossa vida de todos os dias?

O acto de canto educa-nos para estarmos constantemente à escuta dos nossos irmãos. Pede-nos, também, que nos dêmos a nós mesmos, que nos ofereçamos em «sacrifício de louvor», no Espírito, por Cristo.

É o que a Oração Eucarística exprime quando suplica ao Pai que nos conceda a graça de sermos uma oferenda viva para louvor da sua glória.

Assim concebido e executado, o acto de canto é mistagógico, isto é, faz-nos entrar no mistério de Cristo que se oferece ao Pai para a salvação dos homens. E é também um acto profético: anuncia que o Reino está já aí em toda a sua novidade, mesmo que não esteja ainda plenamente presente e seja sempre algo que há-de vir. Pelo canto, nós aproximamo-nos de Deus.

Os textos dos cantos, que se inscrevem na nossa memória e edificam a nossa fé, são um lugar importante de mediação entre a Palavra e as nossas palavras humanas que nela se inspiram para tecer os textos dos cantos.

Urge, pois, repensar o nosso acto de canto na celebração litúrgica. O que só acontecerá se tivermos bem claros os princípios sobre os quais se deve basear para ser realmente canto litúrgico.

O canto nunca poderá ser algo para «embelezar» e tornar menos «pesada» a celebração. A educação para a escuta vigilante da Palavra é que constitui o grande desafio de todas as comunidades.

Tanto ela como o canto buscam que a celebração litúrgica sirva realmente para fazer corpo, sem excluir ninguém, para edificar em conjunto o Corpo Místico de Cristo.

Todos os actores do canto devem oferecer à assembleia o poder de viver a transição pascal. Devem permitir que todos possam empreender o caminho da libertação. Cada um deve aprender a morrer para ele mesmo para que se possa abrir ao outro, para dele receber e a ele enriquecer com o seu bem próprio.

Apostar nestas perspectivas do canto litúrgico, nascendo e vivendo da escuta da Palavra, é um desafio maior à nossa pastoral. Não há razões para continuarmos a assobiar para o lado.




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