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820. Meu caro Zé:

1E perguntas-me tu, perplexo: – Mas, então, será que este país virou mesmo à esquerda? Será que o mapa pintado de rosa (que é o vermelho envergonhado) quer dizer que o povo virou socialista?

N/D
2 Mar 2005

Um povo que é católico, reza, chora, vai a Fátima, adora fado, futebol e farra, preza a família e ama a Pátria… muda assim de repente?

E eu respondo-te, meu velho, que este povo não disse, nas urnas, o que, verdadeiramente, queria, mas o que não queria.

Qual esquerda, qual socialismo? O povo votou mas é contra os sacrifícios que a governação de Barroso e Santana lhe impôs. E eram, supõe-se, para o livrar da tanga em que Guterres o pôs.

E o povo, olha bem, não está para aí virado. Ninguém lhe fale em apertar o cinto. E votou neste Sócrates, como votava noutro qualquer que lhe ciciasse ao ouvido em tons cor-de-rosa! E que nunca o tivesse governado, nunca o tivesse lixado!

Olha para o que te digo, o povo está sempre no contra e vota em quem lhe prometa comezainas, passeatas, futebol e boa vida! Por isso, não te iludas, o povo nunca vira à esquerda ou à direita. Deixa-se ir na onda, simplesmente!

2. E, assim, caro Zé, como agora foi nesta onda rosa, tempos houve e outros tempos virão em que irá na onda laranja! E como qualquer onda, cujo destino é morrer em espuma na areia, a onda rosa aí terá também o seu!

E, se calhar, mais depressa do que pensas. E os problemas, as dores do país, continuam à espera de outra onda, de outras ondas de outros Sócrates que lhes aprontem solução!

Porque, dificilmente, os políticos, quando governam, querem desagradar ao povo. Eles sabem que, quando lhe falam em austeridade, rigor, trabalho, crise e tanga, estão a cavar a própria sepultura política.

E os governos de Barroso e Santana foram fracturantes: congelaram salários, cortaram benefícios fiscais, retiraram abonos de família, agravaram as contribuições sobre o património imobiliário, quiseram acabar com as SCUT’s, criaram nova legislação do arrendamento, combateram a fraude e evasão fiscais… Coisas, obviamente, que desagradaram ao povo!

E não penses, agora, meu velho, que o Sócrates vai deitar tudo isto ao lixo. Porque ele não faz milagres! Mas, se os fizesse, só podiam ser os milagres do trabalho, da produção, dos sacrifícios, da austeridade!

A situação do país a isso obriga. E o povo, mal habituado, pensando que só tem muitos direitos e nenhuns deveres, enquanto houver políticos que lhe falem ao ouvido em tons cor-de-rosa, vai atrás, vai de cabeça!

Agora, meu velho, compreendes por que o país não virou à esquerda, mas foi na onda?

Na onda que, por acaso, foi uma onda rosa!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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