Fotografia:
Menezes candidato

Sem pretender adivinhar o futuro, das duas candidaturas já apresentadas para liderar o PSD, uma delas não parece ter pernas para andar muito mais longe.

N/D
1 Mar 2005

E digo-o por três razões:
1. porque o candidato tem atrás de si uma imagem de instabilidade pessoal e de frágil consistência política;

2. porque se identificou com o estilo populista de Santana Lopes, que foi rejeitado;

3. porque a sua candidatura não está a ter aceitação social.

1. A instabilidade faz parte do seu estilo pessoal e da sua história política. Basta só contar as vezes que disse que queria sair e voltou a ficar na autarquia de Gaia ou outros episódios que a TV vai recordando. É um homem afável, culto, com uma inteligência emocional acima da média, mas a instabilidade faz parte do seu modo de ser como a sombra que o segue.

É certo que a sua inteligência emocional lhe dá uma grande facilidade de comunicação afectiva e de sedução dos eleitores, o que lhe tem valido muitos votos em eleições políticas. Filipe Menezes é uma pessoa com natural charme. E ninguém tem motivos para duvidar da sua sinceridade, de saber se ele usa ou não essa capacidade de charme como arma política.

A questão não é essa. A questão é saber se, depois, ao nível máximo como líder de um partido e tendo de lidar com um grupo de líderes intermédios ou então na praxis governativa, onde se requer mais pragmatismo, mais estabilidade, mais ponderação de decisão, ele iria ter o mesmo sucesso que na relação directa com o povo.

1.1. A consistência política. O que sobra a Menezes na abordagem humanista dos problemas e que lhe advém da sua formação profissional e do seu charme pessoal, falta-lhe em ideias políticas e definição clara no campo sociológico, económico, jurídico. O seu discurso político é bastante simplista, emotivo, pouco consistente, não apresenta soluções que expliquem o estado real das carências sociais do país e aponte caminhos eficazes de soluções de desenvolvimento.

Por outro lado, o anúncio de caras novas para tudo não significa necessariamente sabedoria política. A sabedoria só se adquire com a reflexão e com a experiência. E a experiência cresce com a idade. Querer apenas caras novas a título de renovação pode significar apenas o desejo de se libertar dos que lhe podem tolher os seus projectos de poder.

2. A tentação do basismo. Menezes é um homem politicamente ambicioso, o que é positivo. Tem lutado por várias causas; mas, à medida que elas se distanciam mais do contacto directo com o povo, as coisas complicam-se e os resultados vão claudicando. Essa sua faceta de simpatia e facilidade na comunicação com o povo deixa de ter eficácia quando os intervenientes já são outros e se entra na dinâmica de grupo mais restrito, onde a luta pelo poder e pelos interesses é mais intensa e mais directa.

Provavelmente, é por isso que ele não gosta dos congressos, porque aí já não tem as mesmas facilidades de sedução e de êxito que tem no contacto com o povo. Será por isso também que ele defende que é preciso devolver o PSD às bases, renovar todos as caras de cargos directivos, a eleição directa pelos militantes, o contacto com o povo que lhe outorgue o poder sem passar por lutas de elites intermédias.

Não é que a eleição directa do presidente do partido pelas bases seja algo de reprovável. Até pode ser a mais legítima, embora não seja a mais exequível e não deixe de estar sujeita aos mesmos apetites caciquistas de poder, que depois se reparte. A questão não é a bondade ou a deficiência democrática da eleição directa; a questão aqui é saber qual a motivação desta pretensão, que aponta para uma frágil capacidade de liderança. E saber também até que ponto isso representaria um maior risco de pretensa deriva para um populismo executivo.

A popularidade não é nenhuma peste política, como muitos pretendem fazer crer, desde que se respeitem os princípios e as regras da representação democrática do poder. É preciso que se diga que há muita gente a clamar contra o populismo que apenas o faz por inveja de não ter esse carisma, de não ser capaz de atrair a simpatia do povo na sua relação directa com ele, de não saber fazer passar a mensagem do seu projecto, de não ser verdadeiramente popular.

Por exemplo, Narciso Miranda é um fenómeno de atracção e de comunicação popular. Isso é uma qualidade apreciável. A questão é saber o que depois se vai fazer com essa qualidade de relação com o povo.

O populismo só se torna perigoso na medida em que pode comportar em si o risco de abrir as portas ao tipo de caudilhismo. Mas, isso é muito difícil no formato de controle institucional que temos. Depende também da personalidade do líder. Não é líder populista quem quer, mas só quem tenha qualidades pessoais para isso, que são muito raras.

Depende da personalidade e da honestidade política do líder que disponha dessa margem de maioria do poder. Por falar em honestidade política, Kant não se cansava de dizer que a moral era a cúpula do saber humano. Há muita gente que não gosta de ouvir falar disto, muitos que foram mesmo apanhados nas malhas da justiça e querem agora branquear a situação aos olhos do povo para poder regressar aos cargos de poder. Por isso é que preferem líderes fracos para se sentirem mais à vontade.

É mau sinal quando se pretende calar a voz da consciência moral da sociedade. A longa permanência em cargos públicos tem que ser revista.

3. E, por fim, a imagem social. As pessoas parecem dar-me razão nesta apreciação crítica e previsão de que esta candidatura não irá muito longe: reparei, há bocado, numa sondagem na internet que o outro candidato já ia com mais de 50% de preferências à frente de Menezes. A ver vamos, porque ainda é muito cedo.




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