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Quaresma e vocações

O nosso bispo diocesano, Dom Jorge Ortiga, publicou uma nota pastoral sobre a Quaresma em que nos chamava a atenção, entre outras coisas, para o ano pastoral sobre as vocações que a Arquidiocese está vivendo.

N/D
28 Fev 2005

Não sou especialista em pastoral vocacional, mas há mais de 40 anos que a vou fazendo dum modo tosco e nem sempre o mais feliz. Entretanto da minha experiência aqui ficam algumas reflexões.
A Quaresma, enquanto tempo favorável para mais e melhor oração deve ser aproveitada como tempo de orações pelas vocações. Mesmo as celebrações penitenciais ou a tradicional “Via Sacra” bem podem levar dentro delas esta intenção: rezar pelas vocações. Mas sendo a Quaresma um tempo privilegiado para a nossa penitência, seja ela qual for, pode e deve ser essa penitência oferecida pelas vocações.

A penitência unida à oração já será algo muito fecundo para a nossa pastoral vocacional. Entretanto somos, na Quaresma, convidados a um desafio de maior caridade. Ora se a caridade é aquilo que de melhor podemos fazer e oferecer, porque não fazer oferta da nossa caridade quaresmal pelas vocações?

Mas parece, que me desculpem os mestres se não digo bem ou se meto foice em seara alheia, a Quaresma por muitas outras razões é tempo privilegiado para pensar nas vocações e, porventura, fazê-las surgir. Em primeiro lugar porque a Quaresma nos convida ao silêncio e à escuta diária da Palavra de Deus que pode mover alguns a um desejo de maior recolhimento e silêncio na escuta dessa Palavra na vida contemplativa.

Mas a Palavra que é anunciada com abundância neste tempo quaresmal, pode fazer nascer o gosto de ser pregador, evangelizador, ministro qualificado do anúncio, como sacerdote de Jesus Cristo.

Em segundo lugar sendo a Quaresma tempo tão propício para a celebração do sacramento da Reconciliação, ela pode suscitar em muitos corações o desejo de um dia, poder confessar os pecados de seus irmãos, ser ministro do sacramento, distribuindo com abundância a misericórdia de Deus. Quanta necessidade há de sacerdotes que aceitem com gosto e generosidade confessar seus irmãos e irmãs. A múnus de ministros do sacramento pode tocar o coração de muitos, desejando um dia exercer este ministério.

Em terceiro lugar a Quaresma apresenta-se a nós como convite a mais caridade, ao serviço mais generoso e desinteressado dos irmãos, à capacidade de rasgar o coração para “passar fazendo o bem”. E porque não podem, esses actos de caridade em favor do próximo, suscitar o desejo de um serviço exclusivo dos irmãos mais pobres e mais doentes, mais idosos e mais necessitados, numa vocação de consagração através do carisma da caridade evangélica? Porque não aprender na Quaresma a servir e a dar-se total e radicalmente ao próximo, entregando a sua vida a Jesus e ao Reino, na vida sacerdotal ou religiosa?

Em quarto lugar, parece razoável, pensar que a penitência quaresmal pode ser uma escola para muitos saberem abster-se daquilo que gostam ou lhes dá prazer, e sacrificar-se em favor do próximo. A penitência quaresmal seria, assim, um pequeno ensaio, para depois voar mais alto e mais longe. Na Quaresma aprende-se a exercitar a vontade e a saber ser menos egoísta, mais serviçal, mais dedicado aos outros, esquecendo-se de si, do seu futuro, do seu dinheiro, dos seus planos, para entrar nos projectos de Deus e lançar-se no serviço exclusivo dos irmãos e do Reino de Deus.

Em quinto lugar, dedicando o nosso Arcebispo a nota pastoral também à Eucaristia, como não pensar que Missas mais bem celebradas, com mais encanto e mais vida possam suscitar vocações sacerdotais. Como não pensar que as horas silenciosas de adoração podem suscitar o desejo de ter mais sede d’Ele, de O amar e de O servir dum modo exclusivo? Como não pensar, que sendo o sacrário, como diz o Papa, “um polo de atracção” não atraia muitos corações jovens a seguir Jesus mais de perto, entregando-Lhe as suas vidas? Como não pensar que muitos jovens perante a grandeza da Eucaristia se sintam chamados a um dia poder celebrá-la com encanto, fazendo dela o centro da sua vida?

Em sexto lugar como não pensar que a contemplação da Paixão de Cristo, quer pessoalmente quer em grupo, não desperte no coração dos jovens o desejo sincero de retribuir amor com amor? A Via Sacra, os “passos” e outros momentos vividos com ousada convicção levarão a apaixonar-se por Aquele que deu a vida por nós e que merece todo o nosso amor. Até por esta meditação a Quaresma se torna momento privilegiado de pastoral vocacional. Saibamos nós fazê-la.

A Quaresma e o tema da nota pastoral do nosso Arcebispo, precisam muito de serem matéria de séria reflexão. Deus continua a chamar muitos jovens, nós é que talvez não façamos tudo o que devíamos para os ajudar a sério a responder ao apelo do Senhor.

Deus que ama a sua Igreja e a humanidade continua a chamar muitos e muitas para o serviço dedicado dos irmãos no sacerdócio ou na vida consagrada, nós é que parece que não acreditamos na eficácia da oração e de uma autêntica e sólida promoção vocacional.




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