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Os outros que apertem o cinto

Se o país quer bons professores, para dar apenas um exemplo, deve pagar-lhes como? Se é necessário levar os melhores para a política, para o ensino devem ir quais? Os piores?

N/D
27 Fev 2005

É uma história simples a que protagonizou, nos últimos dias, um jovem ministro do governo francês. Simples e de rápido desfecho.
Pouco mais de uma semana foi o bastante para ela se iniciar, com uma notícia na imprensa, e findar, com a ida do ministro para a rua, o que sucedeu no final da semana que termina. E a expressão “ir para a rua” poucas vezes se pôde aplicar com tanta propriedade.

É que, ao sair do governo, o ministro da Economia Hervé Gaymard viu-se obrigado a abandonar também um apartamento de luxo em Paris, cujo dispendioso aluguer era custeado pelo estado francês.

O ministro da Economia não cometeu qualquer ilegalidade por ter decidido ir morar para um apartamento que custava ao estado a quantia mensal de 14 mil euros, quase três mil contos.

Em França, a função de ministro inclui o direito a um espaço para residir, o que, aliás, suscita, por vezes, alguns abusos. Mas isso, para o caso, pouco importa. O que tramou Hervé Gaymard foram as mentiras em que ele se foi enredando à medida que ia disparando justificações sobre o aluguer, recente, de tão sumptuoso apartamento.

Hervé Gaymard disse, por exemplo, que o facto de ser de origem social modesta não lhe permitia dispor do dinheiro necessário para ter a sua própria casa na capital francesa. “Evidentemente, se eu não fosse o filho de um vendedor de sapatos, se eu fosse um grande burguês, não teria qualquer problema de habitação, seria proprietário do meu próprio apartamento”, dizia, indignado, o ministro à revista “Paris-Match”.

Pouco depois, sabia-se que ele era dono de um apartamento localizado numa das zonas mais caras de Paris e que, além disso, possuía uma casa no campo, uma casa na praia e dois apartamentos na província. Para quem dizia ser tão remediado, não estava mal.

Mas o que verdadeiramente representou o maior sarilho para Hervé Gaymard foi o facto de ele ter ficado encurralado numa séria contradição. O ministro da Economia pedia sacrifícios aos franceses, mas colocava-se à distância do imenso grupo dos sacrificados.

De resto, ele não pedia sacrifícios, ele impunha-os. Como só os impunha aos outros, acabou – e bem – na rua.

A história de Hervé Gaymard não tem nada de excepcional, mas ilustra muito bem o modo de funcionamento de um género de personalidades, sobretudo do mundo da política e da economia, que sabe exactamente quais são os sacrifícios que é imperioso que se façam para salvar as nações e o mundo.

Quando, contudo, dizem que é preciso apertar o cinto, essas personalidades usam sempre suspensórios. Um dos exemplos mais evidentes da duplicidade de quem defende uma coisa para os outros e o contrário para si próprio diz respeito aos diversos tipos de congelamento.

Congela-se os acessos à função pública, congela-se os ordenados, congela-se isto e aquilo. Mas, quando se trata do frigorífico próprio, tudo se pode ir descongelando.

Na tarde de sexta-feira, na SIC Notícias, os ordenados dos políticos era o tema que, pela enésima vez, se discutia num daqueles programas em que os telespectadores também podem dar palpites.

O tema estava colocado na ordem do dia porque, na noite anterior, no mesmo canal, num debate com empresários, tinha sido defendido que era necessário pagar melhor aos políticos.

Num outro debate televisivo, alguns dias antes, um comentador económico subscrevia uma proposta inovadora, segundo a qual os empresários tanto deveriam poder aumentar como reduzir os salários dos seus trabalhadores.

É costume dizer-se que, se o país quer bons políticos, deve pagar-lhes bem.

Quer se concorde, quer se discorde (e talvez não fosse errado pagar aos políticos exactamente aquilo que eles ganham nos empregos onde os vão recrutar, de modo a que a política não seja um serviço em que se vai para perder ou para ganhar dinheiro), não deixa de ser curioso verificar que não é habitual escutar quem defenda a aplicação generalizada de tal princípio.

Se o país quer bons professores, para dar apenas um exemplo, deve pagar-lhes como? Se é necessário levar os melhores para a política, para o ensino devem ir quais? Os piores?




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