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Deveria Paulo Portas demitir-se?

É de louvar o seu desprendimento dos cargos políticos, dentro do espírito de democracia. Só lhe fica bem essa atitude. Mas, neste momento, a minha opinião política é que não se devia demitir

N/D
26 Fev 2005

A noite de eleições de 20 de Fevereiro foi fértil em surpresas, a maior das quais foi a distribuição dos votos que deixaram de ir para o PSD pelo Partido Socialista, dando-lhe um inesperado superavit e benefi-ciando também o PC e o BE.
Estes resultados estão para além da compreensão lógica do tradicional leque partidário e só se compreendem neste gesto colectivo de crítica ao governo de Santana Lopes.

Não tem outro significado que esse. Não foi o povo que de repente passou todo para a esquerda; foi o povo que, nestas circunstâncias, optou por votar significativamente em partidos de esquerda, porque era a alternativa possível. Se os responsáveis do PS não entenderem assim esta votação e não forem coerentes nas medidas a tomar, depressa se podem ver confrontados com a reprovação popular.

É bom que o PS tome consciência que esta maioria desconcertante não corresponde a nada que tenham feito na oposição, não corresponde a nenhum projecto político significativo que apresentassem na campanha eleitoral e vai contra a memória eleitoral de há 3 anos.

Trata-se de um voto de protesto popular. Se o PS foi o depositário da maior parte do protesto eleitoral de descontentamento, só resta ao país esperar que o saibam traduzir em governação adequada.

O grande penalizado foi o PSD. E quem apanhou também por tabela foi o CDS, por estar associado ao governo de Santana Lopes.

Para muitos eleitores que ouvi quando iam votar, o CDS foi penalizado apenas por isso e não pelo desempenho que teve no governo. Nesta lógica de julgamento do descontentamento, justifica-se a pergunta feita, em epígrafe: deveria Paulo Portas demitir-se?

É sempre uma decisão pessoal, mas parece-me um pouco precipitada, nestas circunstâncias, a decisão de se demitir. Teria lógica se dissesse que se demitia por se ter associado a Santana Lopes no governo.

Aí, sim, foi um passo muito arriscado, porque tinha obrigação de saber que Santana Lopes é um hábil político, mas não tem perfil para executivo. É um emocional, com a consequente tendência para a instabilidade, convencido que tudo se resolve com charme de magia política.

Sobra-lhe oratória e falta-lhe rigor e frieza necessários para o cargo. É um político perseverante, um corredor de fundo, não desiste dos seus objectivos a longo prazo, mas não ao nível pragmático que é típico do executivo.

Essa não é a sua personalidade. A de Guterres e Mário Soares também não. Cada um é como é. E Santana Lopes é assim. Pode ser um político habilidoso e brilhantes ao nível de relação pessoal, mas não é um executivo. São coisas diferentes. E ser político não se esgota no ser executivo.

Naturalmente que Paulo Portas, associado ao governo de Santana Lopes, iria com certeza partilhar desse voto de descontentamento.

Se utilizarmos critérios de razão, o voto de Domingo 20 de Fevereiro foi muito injusto para o CDS e para Paulo Portas. Mas este sistema de votação usa uma paralógica emotiva. O povo reagiu mais no registo do gosto ou não gosto do candidato do que no registo do compreendo ou não compreendo o programa apresentado.

Esta é, neste momento, a lógica do voto popular que temos, que releva de falta de preparação política do povo. É a democracia que temos. E que vai levar muito tempo a mudar. Só nos resta procurar melhorá-la. isso não está em causa e não mudará nesta geração. Leva muito tempo a evoluir.

O que é certo é que o voto vale. E ponto final. Seja lógico ou ilógico.

No fundo, os políticos também não se podem queixar do ilogismo da votação, porque o povo reage da maneira que sabe, à medida da preparação política que tem e do modelo de participação política que lhe dão.

No caso de Portas, honra lhe seja, foi ele e mais o BE os únicos que defenderam o aprofundamento da participação democrática. Dos outros, nenhum teve a lucidez e a coragem de o fazer.

Paulo Portas não parece muito dado a esta lógica de sentimento na política. É mais cerebral, mais frio, mais lógico, mais analítico. Tem de aprender a ser mais comunicativo no registo do sentimento político, desde logo na forma do discurso e no tom do discurso.

Quando fala é duro, tenso, parece que está a ralhar com os ouvintes. E tem perdido muitos simpatizantes por causa disso. Deve ser ra-cional e brilhante acuidade do argumentar, directo aos problemas, mas fazendo-o num registo de tom não agressivo.

Penso que ele interiorizou e assumiu demasiado a censura popular contra o governo do parceiro da coligação como sendo dirigida contra si e contra o CDS. E possivelmente não foi.

Ficou muito magoado por os partidos de esquerda, nomeadamente o BE, terem subido muito a votação, mas isso foi uma conjuntural capitalização de descontentamento.
Tenho para mim que, sem ofensa para esses partidos, que se eles não constassem da lista, o descontentamento era traduzido em votos em branco.

Foi assim que mais de 155 mil fizeram: votaram em branco, para não terem de votar nos partidos de esquerda, com os quais não se identificavam.

Por último, Paulo Portas deveria ponderar se a sua saída não deixa o partido fragilizado nesta fase de crescimento e afirmação em que está. A minha opinião é que deixa.

É de louvar o seu desprendimento dos cargos políticos, dentro do espírito de democracia. Só lhe fica bem essa atitude. Mas, neste momento, a minha opinião política é que não se devia demitir.




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