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No rescaldo das eleições

No futebol, o que conta são os golos marcados, não anulados pelo árbitro. Numas eleições, o que conta são os votos válidos entrados nas urnas. E o que os tais votos dizem é claro e insofismável: nas eleições de domingo o Partido Socialista obteve a maioria absoluta. Não depende de ninguém para governar como entender.

N/D
24 Fev 2005

Sem o recurso a negociações como a do célebre queijo limiano. O Partido Socialista passou a ter o que Francisco Sá Carneiro desejou mas não conseguiu: um governo, uma maioria, um presidente. Tudo é cor de rosa. Politicamente, possui todas as condições para agir. Esperemos que actue, tendo em conta o bem comum, não se deixando influenciar pela força dos lobis nem cedendo à tentação do compadrio ou do clientelismo. Que não cometa os mesmos erros que condenou nos outros, quando se perfilar a corrida aos tachos.
Que não caia na ditadura da maioria. Que saiba dialogar e escutar as opiniões discordantes, já que ter a maioria dos votos não significa que sempre se tenha razão, que se saiba tudo de tudo, que em tudo se seja o mais competente, que para tudo se possuam as melhores soluções. Que o eng.o José Sócrates escolha, para equipa governamental, os que considere serem os melhores: os mais competentes, os mais conscientes, os mais capazes, os mais dedicados.

Que proceda às reformas de fundo que a pretendida e prometida mudança impõe. Que não hesite perante as medidas exigidas pelo bem dos Portugueses, por impopulares que pareçam. E que a oposição o deixe governar, procedendo a uma contínua e atenta vigilância e a uma corajosa crítica construtiva que aplauda o que é de aplaudir e denuncie o que deve ser denunciado.

O Partido Socialista teve, de facto, a maioria absoluta dos votos válidos entrados nas urnas. Convém no entanto recordar que essa maioria resulta da obtenção de 2.573.302 votos de entre os 8.784.702 votos possíveis, que é o total de eleitores inscritos. O Partido Socialista obteve a maioria absoluta – 2.573.302 – dos votos válidos entrados nas urnas mas não teve o voto de 6.211.400 portugueses.

Houve 3.072.721 que não votaram, houve 103.555 que votaram em branco, houve 63.765 votos nulos. Os que não votaram – a abstenção foi de 34,98% – representam um total de portugueses maior – 499.419 mais – do que os que votaram no Partido Socialista.

Continua a haver uma maioria silenciosa – lembram-se do discurso do falecido Marechal António de Spínola, por ocasião do 28 de Setembro de 1974? – e é pena que se não manifeste.

Porque é que tantos portugueses se abstiveram?

Quem o decidiu, que responda. Pode ter acontecido de alguém não ter votado por comodismo. Pode acontecer de alguém não ter votado por impossibilidade de o fazer: pessoas que estão longe e não puderam deslocar-se. Pode acontecer de alguém não ter votado por desencanto, por se encontrar desiludido com a forma de fazer política, por entender que o voto não adianta nada porque tudo continuará na mesma.

O tão elevado número de abstenções tem de ser motivo de reflexão para os responsáveis. Há que motivar os cidadãos. Há que fazer com que todos se interessem pelo que é de todos. Há que fazer tudo para eliminar as causas que levam tantos cidadãos a não participarem num acto tão importante como este.

E também faz falta reflectir no significado dos votos brancos. Aqui não houve comodismo: as pessoas foram às urnas e entregaram o seu voto. Não se decidiram por nenhuma das listas apresentadas a sufrágio. Porque não confiaram em nenhuma delas? Porque a campanha eleitoral, precedida de uma tão grande pré-campanha, não foi suficiente para as esclarecer?

E que pensar dos votos nulos?

A vitória de domingo é uma responsabilidade para o Partido Socialista. Desejosos de mudança, mais de dois milhões e meio de portugueses confiaram nele. Deram-lhe todas as possibilidades que, como eleitores, tinham ao seu alcance. É preciso não os desiludir.

Nas eleições de domingo houve vencedores e houve vencidos. Que os primeiros usem para bem de todos os votos que lhes deram. Sem extremismos nem fundamentalismos. Sem dogmatizarem questões discutíveis. E que os segundos aprendam a lição que a derrota lhes traz.

Que quem votou ande atento às consequências que o seu voto teve.




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