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As surpresas da noite de eleições

Foi uma noite cheia de surpresas esta das eleições de 20 de Fevereiro. Como se se tratasse de um acontecimento mágico onde todos procuram o segredo do mistério, mas ninguém o sabe nem encontra, assim foi a votação popular no deixa ver o que dá porque assim é que não pode ser nem quero continuar.

N/D
23 Fev 2005

1. Tive a curiosidade de perguntar a várias pessoas o que esperavam das eleições. De algumas ouvi dizer que não sabiam como iriam votar ou se iriam votar porque não gostavam de nenhum dos candidatos.
Perguntei se o mais importante eram as propostas dos candidatos ou a sua simpatia pessoal. A resposta foi a mesma: não gosto de nenhum dos candidatos.

Para outros, todo o problema se reduzia ao clima de optimismo social: as pessoas andam deprimidas, não investem em nada, a construção civil está parada, os têxteis estão em crise.

Quando lhe perguntei se não seria de esperar que mais dia menos dia a construção civil começasse a baixar porque já havia mais casas do que pessoas e que os têxteis dependem mais do acordos internacionais do que de políticas governamentais, concordou mas mesmo assim disse que andava tudo deprimido e que ia votar na esperança.

Ainda aleguei que essa análise era perigosa porque não correspondia a nada de objectivo que pudesse mudar a situação económica e social a não ser a um mero estado de alma face aos problemas de descontrolo economico-financeiro que o governo tentou resolver e não conseguiu ou não soube ou não teve tempo de conseguir e que votar na esperança, fosse lá o que fosse, poderia ser apenas uma espécie de saída mágica da crise.

Ficou calado e continuou na dele.

O que se verificou, com a independência possível como observador, é que o povo reagiu na votação de um modo irracional e mágico, sem memória do passado recente, sem exigir projectos de solução económica e social.

Como não compreendeu o que se passa com o país nem lho explicaram, optou pela magia da auto-estima: talvez acreditando que tudo vai melhorar, faça com que melhore mesmo…

2. É assim que surge um dos problemas mais difíceis de compreender desta noite de eleições: os mecanismos de motivação do voto do povo.

Para uma grande maioria, o discurso racional não contou nada. O que contou foi a simpatia e a habilidade do discurso dos candidatos: gosto deste, embora a sua política não me mereça crédito; gosto deste porque diz as verdades; neste não voto porque toda a gente diz mal dele…

A maioria reagiu de forma dependente, transferindo para os outros o encargo de pensar por eles e de resolver por eles. Não lhes interessou programas nem projectos. A maioria acreditou no que a comunicação social ia dizendo, não mostrando capacidade crítica nem autonomia de pensamento.

Isto põe diversas questões de regime que não podem ficar sem respostas. A primeira é que os políticos podem ser reforçados com estas eleições a continuar a ter comportamentos eleitoralistas de terceiro mundo prometendo esperanças que sabem que não podem realizar, mas também não estão muito preocupados com isso porque a memória do povo é curta.

Outra questão é não se preocuparem em renovar o regime de participação democrática do povo, tornando-o mais participativo e mais exigente, em vez de esperar de 4 em 4 anos com o voto na mão, na ilusão de que é dono do poder, quando é apenas instrumentalizado e ninguém mais se lembra dele.

É urgente a sociedade civil começar a mobilizar-se para criar grupos de estudo e reflexão que mobilizem as pessoas a pensar e a intervir. O artigo recente de João Aguiar NÃO DESISTIR merece toda a concordância.

Outra questão é como o povo pode participar mais na escolha dos candidatos, que são apenas apresentados dentro da lógica fechada e interesseira dos partidos na repartição das benesses, sem que o povo conte para nada.

Outra ainda é questionar os órgãos de comunicação social pagos com o dinheiro dos contribuintes, rádio e televisão, para que estejam objectivamente ao serviço do povo, que os paga.

E não pode ficar também sem reparo a RR, cujos comentários políticos mais pareciam de extrema-esquerda do que equilibrados e ao serviço comum. A RR tem que rever o que diz e o modo como diz e colocar-se sem radicalismos ao serviço da promoção cristã do povo.

3. E agora, PS, que fazer com esta maioria? Finalmente, depois desta vitória do protesto contra o mal estar corporizado no governo e do voto mágico no escuro, sem se basear nem na prática do passado nem nas propostas para o futuro do partido vencedor, o PS acordou atónito e mal acreditava no que estava a acontecer.

É isso mesmo: e agora, PS, que fazer com esta vitória de tanta gente que se afirma como do centro e da direita e que votou em cheque branco contra o descontentamento e contra a crise para a qual não vê saída?

É, de facto, uma herança inesperada que exige uma responsabilidade e competência e rigor redobrados. Vamos esperar para ver. Mas com o desejo de que consigam realizar as esperanças neles depositadas.

4. Outra das faces do voto no descontentamento foi o voto no radicalismo de esquerda, cujo objectivo político é apenas ser voz de protesto social. Qual náufrago à deriva no meio desta grave crise, muito povo votou na voz que deu corpo aos seus queixumes e protestos. Será que o seu voto vai ter utilidade?

5. Um dos rostos da responsabilidade do desgoverno dos últimos meses assumiu, não assumindo, a responsabilidade da derrota e do descrédito da imagem do governo, que arrastou na onda da crise de descontentamento o seu parceiro de governo, dando origem a uma maioria de protesto e não de mérito político.

Será que não é capaz de ao menos uma vez na vida ver mais adiante do seu nariz que os interesses do povo devem estar acima dos seus próprios interesses? A minha opinião é que tem capacidades políticas, mas nunca ao nível executivo. Para isso não tem perfil.

Faça outras coisas, que a política não se esgota ao nível executivo. E aí poderá ser competente e útil.

6. Por fim, o que também pode ser primeiro: um dos participantes no painel da RTP, que é publicamente e assumidamente PS, disse que depois desta maioria alcançada pelo PS o Presidente da República podia dormir descansado depois de 3 anos de insónias.

Às vezes a boca foge para a verdade, mesmo quando não se quer. Entenda quem quiser.




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