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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2005

Peço hoje ao presidente do meu partido que ouça a voz genuína da sua gente e reconsidere a sua decisão

N/D
22 Fev 2005

Caro Dr. Paulo Portas:

O povo português foi chamado a votar e votou em consciência e em coerência com as razões que lhe assistem. Nós pertencemos, com orgulho, a um partido que sempre defendeu que é ao povo, nas urnas, que cabe a decisão soberana e justa sobre os destinos do nosso país.

A maioria decidiu castigar o centro-direita com uma derrota pesada e reforçar a esquerda com uma vitória expressiva. O Eng.º José Sócrates e o PS merecem, por isso, uma palavra de congratulação e o povo português um sentido e profundo respeito pela decisão tomada.

O povo votou em quem foi capaz de lhe dar esperança. Vamos esperar, a bem de Portugal, que o governo do Partido Socialista consiga trazer resultados.

O nosso CDS perdeu as eleições, é um facto. Apresentámo-nos a este acto eleitoral com o objectivo difícil de conseguir uma maioria para o centro-direita e falhámos.

Pedimos dez por cento dos votos e não os obtivemos. Quisemos continuar a ser a terceira força política em Portugal e perdemos. Combatemos contra o crescimento anormal da esquerda mais anquilosada e não fomos ouvidos.

Como não partilhamos a forma de estar na política de outros, assumimos a nossa derrota com a honestidade e a honra das pessoas que conhecem o valor das suas convicções.

Os minutos mais tristes da triste noite de ontem foram aqueles em que pude ouvir, aos microfones da rádio, a lágrima que lhe brotou da voz porque não lhe quis cair pelo rosto. Devo dizer-lhe, meu caro presidente, que a sua lágrima foi a gota de tristeza e o oceano de orgulho de milhares de militantes e simpatizantes do nosso CDS.

Mas também tenho que lhe dizer que o seu “até breve” é o nosso “vou já aí ter contigo”.

Dirijo-lhe esta carta aberta em meu nome e, estou certo, em nome dos homens e mulheres do CDS com quem falei na nossa noite triste, para lhe dar conta de um partido que em tempos teve morte anunciada e que hoje lamenta a derrota de merecer o voto de mais de quatrocentos mil portugueses.

Escrevo-lhe para me pronunciar em nome de um partido cuja representação parlamentar coube em tempos num táxi e que, no dia da maior derrota do centro-direita desde o 25 de Abril, consegue encher três.

Escrevo-lhe para defender que os votos que obtivemos em 2005 já não são apenas atitudes de protesto efémeras e conjunturais, nem resultam de uma aposta exclusiva em “nichos de mercado” eleitorais, mas de uma convicção profunda num programa de governo e numa obra realizada, sendo esta metamorfose tranquila do nosso CDS uma condição de crescimento e uma prova de maturidade política.

O CDS não é hoje apenas o partido de Paulo Portas, e o mérito desse engrandecimento é, em primeiro lugar, seu. Estas linhas não são motivadas por qualquer sentimento de orfandade política, nem por qualquer tipo de desespero, mas por um sentimento profundo de que há um percurso viável de transformação do CDS num partido maior e mais capaz, bem como pela certeza de que ainda existe caminho a percorrer e de que o Dr. Paulo Portas deve percorrê-lo connosco.

O seu tempo à frente dos destinos do nosso partido ainda não acabou.

A questão que se coloca hoje não é, nem por sombras, a da viabilidade do CDS como partido estável, responsável e com tendência a crescer a médio e longo prazo.

Qualquer que seja a sua decisão, o CDS saberá encontrar um bom líder. A questão é que, hoje, os militantes e simpatizantes do CDS querem-no a si.

Ouvimo-lo dizer ontem que sempre pediu a Deus que lhe dissesse quando era a altura de parar. Peço hoje ao presidente do meu partido que ouça a voz genuína da sua gente e reconsidere a sua decisão.




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