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Diálogos interrompidos

Fico a pensar que a ciência e a fé também podem viver assim abraçadas

N/D
21 Fev 2005

É noite e observo o céu, o céu da imensidão. Céu velho de velhas memórias! Ele acorda a minha infância e esta fala, tagarela sem descanso. E não apenas dos homens e dos sítios… também das estrelas e das árvores que se entendem, e de pirilampos em diálogos de luz ou namoro de moitas e de casas em seus silêncios cúmplices; ficam de fora as sombras, como já então ficavam, em suas conspirações e agasalhos esconsos. Não lhes concedo o dom do entendimento. Sou deus desta criação.
E lá em cima, na montanha, à vista turba pela neblina, as silhuetas do Bom Jesus e do Sameiro recortam-se difusas. Há qualquer coisa de evangélico na direcção destes olhares. Doutros tempos, quando ajoelhado orava perto dela, me vieram estes meus olhares. Foi minha mãe, senhora de sementes que mos semeou. Da bandeja em que mos serviu fiz-me guloso. Fiz-me adulto de outras caminhadas, mas tenho nostalgia desse gatinhar. Quando desespero do presente vou buscá-lo ao passado.

Sem mais palavras: hoje parece não ser possível levar os meus netos a olhar estas coisas ou levá-los a imaginar diálogos entre elas. Tudo lhes pareceria ridículo. «O que o avô é capaz de ver! São coisas da idade. Uma árvore é uma árvore. É capaz de ser daqueles livros que tem na bi-blioteca! Só ele os entende!»

Eles têm toda a razão. Os livros só servem para sonhar. Ora eles têm tudo no concreto. Enquanto nós partíamos à aventura dos lugares e compúnhamos os heróis à nossa maneira, eles têm tudo concretizado. Os seus heróis são mesmo aqueles que os jogos do computador e da play station apresentam. Os nossos eram sempre maiores e mais valentes em nosso sentir, na nossa criação, os deles têm a medida e tamanhos exactos. Nós roubámos-lhes a fantasia da criação.

Fizemos deles pucarinhos todos iguais. Não soubemos dar o adubo verdadeiro a cada flor e talvez por isso é que as flores do jardim deles se parecem todas iguais e todas cinzentas. Mas será por isso que eles andam tristes, aborrecidos, cabisbaixos, arrastando-se pela casa, como vencidos da vida? Têm tudo e afinal, dizem os pais, continuam insatisfeitos. Estão sempre em indigestão – resmungo entre dentes. Sempre entre dentes porque da educação moderna eles é que sabem!

Nesta noite juntou-se-me um neto e a avó na contemplação. Diz a avó: «este espectáculo teve um “relojoeiro” usando a expressão de Voltaire». «Qual relojoeiro, acrescenta o neto, a ciência explica tudo, tudo muito explicadinho neste meu livro de ciências». Olho para Augusto Comte e ele pisca o olho a Nietzsche.

Os dois riem-se do diálogo. Já o meu neto perdia na argumentação com a avó, quando um avião riscou a noite, deixando dois rastos no firmamento estrelado. «Olha avó, vê o que é ciência», disse o rapaz apontando para o avião. E continuou: «Se não fosse a ciência ainda o homem de hoje não tinha chegado à Lua, enviado sondas a Marte ou a Saturno».

«É verdade meu neto», responde a avó, «mas dentro de tanta ciência vai tanta fé! Olha que se não fosse a fé ainda hoje o homem não tinha saído de Dédalo». Os dois retiram-se de braço dado e eu fico a pensar que a ciência e a fé também podem viver assim abraçadas.




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