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O jornalismo que falta

Num dos serões televisivos da semana, foi possível assistir à história de um criminoso, que vindo de um país de Leste, chegou aos Estados Unidos da América, com um comparsa, que filmava todas as malfeitorias que iam cometendo.

N/D
20 Fev 2005

Em determinado momento, há um jornalista, um daqueles voyeuristas que julgam que tudo vale para triunfar na guerra das audiências, que se presta a comprar e a mostrar, apesar de insistentes e dramáticos pedidos em contrário, as imagens cruéis do assassinato do “bom” da história. No fim do filme, um dos colegas do assassinado resolveu esmurrar o jornalista.
No cinema, não são invulgares estas cenas de jornalistas pérfidos que, para oportuna catarse dos telespectadores, são agredidos. Basta recordar os populares filmes protagonizados por Bruce Willis do género Assalto ao Arranha-Céus ou Assalto ao Aeroporto para se perceber que, colocar um jornalista cretino a protagonizar uma reviravolta na narrativa e, depois, a sofrer literalmente na pele as consequências disso, não deixa de ser uma receita de sucesso garantido.

Há quem suspeite que o aparecimento cinematográfico de jornalistas que se comportam de um modo absolutamente detestável não seja obra do acaso. A acreditar nos que assim julgam, o que se pretenderia, através de tais personagens antipáticas para todos os espectadores, seria nada mais nada menos do que denegrir a imagem do jornalismo em geral.

É óbvio que o jornalismo não tem como vedar a entrada a oportunistas, a corruptos e a idiotas úteis que apenas contribuem para desprestigiar um ofício tão importante. Mas é verdade também que, a par dos péssimos exemplos, alguns bem consabidos, que vêm de dentro da profissão, não falta quem, fora, saiba muito bem o quanto pode lucrar com o desprestígio de um trabalho que, evidentemente, é indispensável para uma respiração saudável das sociedades democráticas.

Com más ou com boas intenções, a desconfiança em relação ao trabalho jornalístico instalou-se, coisa que apenas os mangas-de-alpaca da profissão não compreendem, razão, aliás, por que nunca gostam de ser escrutinados relativamente ao que escrevem. Em A Fabricação da Informação (Porto: Campo das Letras, 2002), um breve e interessantíssimo ensaio sobre a “ideologia da comunicação”, Florence Aubenas, a jornalista do diário francês “Libération” que está raptada no Iraque, e Miguel Benasayag, filósofo e psicanalista, observam que durante muito tempo se acreditou que uma coisa era verdadeira porque tinha vindo escrita nos jornais. “Hoje esta crença popular inverteu-se.

De palavras sagradas, as notícias divulgadas pela imprensa tornaram-se, aos olhos dos que a lêem, muito provavelmente falsas ou, em qualquer dos casos, suspeitas”. E “quando vemos os telejornais, a primeira questão que nos surge é: ‘De que é que estarão eles a tentar convencer-nos, desta vez?’ Não há actualmente análise de taxas de leitura ou de audiências que não inclua, nas suas variáveis, esta desconfiança. Que rádio prefere? E qual considera mais fiável?”.

Florence Aubenas e Miguel Benasayag sublinham um aspecto fundamental: “Todos sabem que os jornais reflectem menos a realidade do que a representação que criaram”. Claro que nem “todos sabem” e muitos dos que o sabem preferem agir como se o não soubessem. A par do diagnóstico, os autores de A Fabricação da Informação lançam um desafio: “Criar uma outra imprensa tornou-se, nos dias de hoje, uma tarefa de todos, dos que a fazem, dos que nela aparecem, dos que a lêem”. O facto de nem todos compreenderem a premência da tarefa não significa que ele seja menos urgente.

Alguns tópicos do jornalismo que é necessário são referidos pela investigadora catalã Montserrat Quesada, que Cristina Ponte cita em Leitura das Notícias. Contributos para uma análise do discurso jornalístico (Lisboa: Livros Horizonte, 2004). Diz ela que se impõe que os jornalistas se encarreguem de: “1) procurar descobrir informação inédita sobre temas de relevância social; 2) denunciar, de forma clara e com base na verificação documental, factos ou situações ilegais ou carentes de regulação que vão contra o interesse público geral; 3) verificar todo o processo de investigação por um sistema de contraste duplo dos dados, por via documental e recurso a fontes independentes, a fim de reduzir a zero a margem de erro no publicado; 4) romper o silêncio das fontes oficiais implicadas nos temas, forçando-as a responder pelas suas actuações perante a opinião pública”. Um vasto trabalho. Mas imprescindível.




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