Fotografia:
Três mistérios acerca de Viana

1 – O “rio do esquecimento” – Lá para o seu belo canto de Portugal repousa Viana, tranquila. Mar, monte e rio, praia e campos, duas pontes e muitas estradas. Um porto de pesca, um estaleiro, um ancoradouro para barcos de luxo. A Santa Luzia. E o prédio Coutinho, sobressaindo distintivo, branco e dourado no mar dos telhados côr de argila.

N/D
19 Fev 2005

O Baixo Lima, a “ribeira Lima” é um amplo e longo vale verde, entre montanhas distantes. É um bocado precioso de Portugal, que os locais sempre se preocuparam em defender, desde tempos imemoriais, de cada vaga de intrusos. Deve ter sido assim que nasceu a lenda, a superstição do Lethes (ou Lima) como “rio do olvido, ou do esquecimento”.
Ou haveria alguma confusão com o Leça? Por mais difusas, lentas e desorganizadas que fossem as comunicações entre os diversos povos celtibéricos, algum trânsfuga da Lusitânia terá chegado a Cale (Gaia) ou mais a norte, e terá alertado as divididas tribos da futura Calaecia acerca das impiedosas intenções de conquista e colonização por parte do altamente organizado invasor italiano. O qual, golpe a golpe, ia anexando todas as comarcas da Península, a partir das suas bases no sul e no leste da Ibéria.

Bem consciente da impossibilidade de resistir aos exércitos de Roma (que acabara de derrotar em 139 a.C. os poderosos irmãos lusitanos) os calaicos optaram pela manha.

Algum lavrador rico e manhoso, alguma bruxa intriguista deve ter posto a circular a lenda de que quem atravessasse o Lima perderia a memória do seu passado.

E como nada circula mais rápido que um boato ou uma calúnia, quando por 138 a.C. as tropas romanas chegaram pela 1.ª vez na História ao baixo Douro e ao baixo Lima, muitos legionários começaram a murmurar, temerosos, contra o poder dos deuses daquele rio do fim do mundo conhecido. Porém o comandante, o procônsul Décimo Júnio Bruto (por futura alcunha, “o Calaico”) era pouco dado a superstições.

Tratou de arrebatar o estandarte ao titubeante porta-insígnia e sozinho atravessou o vau do rio a cavalo, pondo-se a chamar desde a margem-norte os centuriões, decuriões e soldados pelo seu nome. Foi quanto bastou para que, com gritos roucos de vitória, a conquista continuasse.

2 – Viana do Lima – Outra singularidade vianense, outro mistério difícil de compreender por quem não é de Viana, reporta-se à forma actual do nome da cidade, Viana “do Castelo”. Trata-se do empolgamento dum episódio da revolta da Patuleia, no tempo de Costa Cabral, esse parente chegado do dr. Paulo Portas. Houve então um comandante de guarnição da antiga fortaleza vianense de Santiago da Barra que disse que só entregava as chaves à rainha D. Maria II e assim fez. Esta elevou Viana de vila a cidade (em 1848) e com inspiração (mais que duvidosa) neste episódio insignificante, mudou-lhe o nome para Viana do Castelo, “daquele” castelo…

Dado que há outras Vianas (ou Viennes, ou Vienas) em vários países como a Espanha, a França a Áustria (e no próprio Portugal), é justo que a cidade minhota de Viana acrescente ao seu nome um qualificativo qualquer. Do “Minho” não convém, porque geraria confusão, dado que o rio que a banha é o Lima. Viana “do Lima” parece a forma mais poderosa e adequada. Porque é sintética, valorizando o próprio estatuto do rio Lima, que embora nascido para os lados de Orense, não deixa de ser um rio relativamente curto, até se comparado com o vizinho rio Minho.

A forma Viana “da Foz do Lima” é demasiado longa e rebuscada, como se houvesse uma outra qualquer Viana a montante do mesmo rio. Quanto a “Viana sobre o Lima” é uma forma longa e vale-se de uma preposição, “sobre” que é raríssima na toponímia de Portugal, embora não em França, Alemanha ou Espanha (veja-se Aire sur l’Adour; ou Frankfurt am Main; F. am Oder; ou Rothenburg an der Tauber; ou Bruck an der Mur).

A forma Viana do Lima é paralela às de Miranda do Douro, ou Miranda de Ebro, ou Alba de Tormes, ou Ginzo de Lima, ou Cinfães do Douro, ou das duas Malpicas do Tejo (em Castelo Branco e Toledo), ou de Sanlúcar del Guadiana, ou de Almodovar del Rio (r. Guadalquivir, claro). Além disso já temos Viana do Alentejo (antiga V. de a par de Alvito) e sobretudo Viena de Áustria.

La Vienne é um rio importante em França, afluente do Loire e que deu nome a 2 departamentos (Vienne e Haute Vienne). Mas a pequena cidade de Vienne (a sul de Lyon, no dept. de Isére, banhada pelo Ródano) é a maior de todas as povoações homónimas francesas. As outras são pequenas aldeias no Marne, em Paris, no Loiret, em Bayeux e no Lot-et-Garonne.

As Vianas espanholas são sempre aldeias: V. do Bolo (Orense), V. de Duero (Soria), V. de Cega (Valladolid), V. de Jadra-que (Guadalajara), V. de Mondéjar (id.) e ainda uma Viana em Navarra (fundada por Sancho o Forte em 1219).

3 – Em defesa do prédio Coutinho – A 3.ª singularidade ou mistério ligado à cidade de Viana é a sanha que alguns se permitem contra uma grande edificação local, um prédio que hoje não seria licenciado mas que o foi à sua época. O prédio destoa um pouco, mas não é feio, sobretudo se o compararmos com o museu Guggenheim, com a Casa da Música ou com o estádio do Beira-Mar. É o lar de largas dezenas de pessoas e não apresenta sinais de ruína.

Eu mal imagino o tremor de terra que não causaria a sua destruição à bomba (implosão), a imensa poeirada à maneira do 11 de Setembro de New York, os estragos que as vibrações não causariam nas construções vizinhas (ou menos vizinhas), muitas delas casas velhas.

Os vidros partidos, os ataques de coração dos moradores. Os milhões de contos desperdiçados na destruição e reconstrução. Com que objectivo? “Requalificações” que por todo o Portugal só desfeiam, só enchem os locais com caros granitos e mármores e que eliminam os verdes, as árvores, os belos terreiros tradicionais… Portugal vem-se transformando numa coutada de gente inculta que não sabe o que há de fazer ao dinheiro.

Nem sabe dar o devido valor ao Património, seja ele paisagístico, natural ou cultural. Mistérios e singularidades de Viana? Infelizmente nem tanto, pois o país tem muitas outras Vianas, neste mau sentido do seu belo nome…




Notícias relacionadas


Scroll Up