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A falta de uma voz

Foram muitos os anos de boa vizinhança. Manhã cedo, mais em tempo de férias, lá estava ela no jardim em frente do meu. Abeirava-me da varanda da sala de jantar e via-a e ouvia-a a falar com a gatinha siamesa, com os cachorrinhos, com a neta Carolina, com as flores. Acenávamos num cumprimento.

N/D
19 Fev 2005

A minha vizinha teve sempre e continua a ter um jardim muito cuidado com plantas e flores escolhidas com gosto e amor. Se chegava do horto e calhava de eu passar ou de ver-me à entrada, chamava-me: «Venha ver o que comprei hoje. São bonitos, não são? Gosta?» E mostrava-me tabuleiros de amores, margaridas, prímulas, alegrias do lar.
Tínhamos o mesmo gosto em relação a flores. Ambas as amávamos muito. Mas o amor dela era muito maior que o meu. Por falta de tempo ou de o aproveitar de outro modo, raramente cuidava o meu jardim. As coisas por lá cresciam e crescem a esmo. O que nasce, fica e eu vou achando graça e deixando estar.

A minha vizinha cuidava pela sua mão e quem quisesse vê-la feliz era rodeada de flores, no meio dos seus canteiros. Se alguma estava mais fraquinha ou lhe morria, dizia-me: «A culpa é minha, tenho-a esquecido e falado pouco com ela. As flores são como as pessoas, não gostam de ser ignoradas.»

Na rua todos eram seus amigos, porque a todos encantava com a sua alegria, o seu riso, a sua alma simples e generosa.

Uma vez, chegava eu a casa e vi-a à portinha do seu jardim conversando com alguém. Abeirei-me e cumprimentei. Logo me pôs a par da conversa. Estava, ela e a outra senhora observar uma das gatas que tinha trepado para a árvore em frente.

– Veja a minha vida! O que me havia de tocar! Uma gata doida. subiu, mas como tem uma pata aleijada não se atreve a descer. Se calhar vou ter que chamar os bombeiros para irem ao cimo da árvore buscá-la. Que dirão eles? Que tão doida é a gata como eu. Ora a minha vida!

Olhávamos, divertidas e curiosas o animal, miando desesperadamente e olhando a rua com terror. De repente, porém, talvez porque um carro passou e o assustou, deu um salto enorme e estatelou-se no meio do passeio.

– Pronto, é ou não doida? – dizia, aflita a minha vizinha – Já deve ter partido novamente a pata. Sabem uma coisa? Eu, não ganho para flores e consertos de cães e gatos.

Na verdade, até dos animais vadios ela cuidava. Acarinhava-os, matava-lhes a fome, levava-os ao veterinário e cuidava-os enquanto estivessem doentes. Então, na sua casa, não havia só os dela, mas todos quantos fossem aparecendo. A gatinha siamesa era a mais mimalha. Adorava vir para o murinho baixo do meu jardim e ali ficava, ronronando à espera das nossas festinhas e observando a dona no espaço em frente. Se percebia que ela ia aproximar-se, ia avisando: «Cuidado! Não atravesses agora! Um dia matas-te, mulher!»

A minha vizinha da frente. Uma pessoa alegre, faladora, risonha. Ninguém junto dela estava triste. E sempre cheia de força, parecendo vender saúde, sempre cirandando no jardim e na rua, acompanhando a pequena Carolina a que ficava com ela enquanto a mão Tiza ia trabalhar.

A minha vizinha da frente. Todos os dias, ao abrir a varanda da minha sala de jantar, dou de caras com a casa dela. Para ela vão os meus primeiros pensamentos do dia. E, curioso, olhando o jardim, consigo vê-la, é-me fácil vê-la, nos seus canteiros, com a neta, no meio das suas flores.

No entanto, desde o dia em que ela partiu, nunca mais ouvi a sua voz. Conheço-a, tenho a nos ouvidos e na mente, reconhecê-la-ia entre mil vozes, se a ouvisse. Mas não a oiço. Nunca mais a ouvi e faz-me muita falta. Porque ela era a alegria, a vida deste nosso cantinho, a rua ficou solitária, silenciosa e triste.

As suas imagens vivem na sua casa, no seu jardim, no coração dos que a amaram e continuam a amar. Mas a sua voz apagou-se. Como ela me faz falta!

Oiço muito a tatibitate da Carolina, qual chilreio de ave, povoando o jardim e espalhando-se pela rua. Mas sem interlocutora, sem a avó que nunca a deixava sem resposta. Falta, pois, uma voz na minha rua. Assim, se não fosse toleima, eu anunciaria no jornal: «Voz amiga. Precisa-se urgente. É uma questão vital. Agradece-se a que a oiça e informe…»




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