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Não desistir

Estes grupos que na sociedade civil se movimentam são, entretanto, a fonte de esperança que nos resta, neste deserto de ideias

N/D
18 Fev 2005

1Tenho andado a catar, nas palavras e acções da campanha eleitoral, algumas ideias para o país. Infelizmente, há mais encenação que conteúdo; mais ruído que reflexão.

Mas se escrevo “infelizmente”, nem por isso me manifesto desencantado: a verdade é que já contava com isto.

Não sou, de facto, suficientemente sonhador para ter alimentado a esperança de ver alguém chegar à TV com um diagnóstico sereno da vida nacional e um receituário adequado.

E, no entanto, é disso que o país precisa: da verdade dita, calma e seguramente, de olhos nos olhos, a um povo que tem vivido entre a anestesia e o sobressalto; entre a crise e o desperdício.

Tenho para mim que um político que seguisse este caminho, poderia sair derrotado nas eleições do próximo dia 20; mas a sua voz haveria de ficar qual semente caída numa esquina do campo, para germinar depois.

Sem este momento da verdade, esperam-nos as desculpas tardias dos que, depois da vitória, dirão que, afinal, não podem ser cumpridas as promessas, por mais isto ou aquilo. E lá ouviremos, pela trigésima vez, o discurso da “herança”.

E lá recomeçaremos novas reformas, nos exactos sectores dos anteriores esforços, como se o país fosse uma dessas páginas da Net que estão eternamente «em construção»…

Ainda antes da campanha conheceram-se apelos de alguns grupos e entidades, reclamando respostas claras para uma série de questões. Sejamos francos: alguém lhes respondeu?…

Penso que não: os dossiês são recebidos, passados aos assessores e acabam a campanha numa qualquer mala de um qualquer carro, perdidos entre a propaganda sobrante.

2. Estes grupos que na sociedade civil se movimentam são, entretanto, a fonte de esperança que nos resta, neste deserto de ideias. Desde que não desistam de importunar e continuamente levantem os problemas essenciais que os políticos que temos não descobriram ou não são capazes de abordar.

De facto, se estas vozes se calarem é a consciência que adormece e a democracia empobrece-se, pois que ela definha todas as vezes que os cidadãos abdicam de uma participação activa.

De facto, é nos cidadãos que constituem a comunidade política que reside a autoridade. Por isso, mesmo que seja circunstancialmente transferida para os escolhidos para governar, nunca o povo deve perder a oportunidade de afirmar a sua soberania, revelando esperanças e desconfortos.

Espero que, neste contexto, assuma especial dinamismo o laicado católico, de modo que, na autonomia que lhe é própria, coloque a dignidade humana, o bem comum e uma correcta hierarquia de valores no centro da sua acção no mundo.

E isto de uma forma permanente e não apenas numas semanas mais agitadas… De facto, todos temos de perder este velho hábito de compromissos sazonais, logo seguidos de uma longa hibernação. Em linguagem evangélica, os rins têm de estar cingidos e as lâmpadas acesas. Permanentemente.

Termino, lembrando duas afirmações do episcopado português: «Empenhar-se na construção da comunidade nacional é, para os cristãos, uma forma de exprimirem a sua fidelidade cristã (…)

E não esqueçamos, em nenhum momento, que a participação política é sempre busca da verdade, expressão do amor fraterno, escolha da honestidade e da generosidade como padrões de comportamento. E nós cristãos sabemos que passa também por aí a construção do Reino de Deus».




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