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Compreender a vida (IV)

Pensar a vida é um estímulo e uma descoberta permanente. Amar a vida é uma maravilha. Atentar contra a vida é uma desgraça

N/D
16 Fev 2005

Não podemos ignorar a importância da sexualidade nas relações humanas e o seu carácter construtivo, anti-stress.

Esta relação torna-se mais evidente quando se sabe que a acção das hormonas supra-renais e da hormona da hipófise, que também participa no mecanismo do stress é, de certo modo, antagonista da acção das hormonas sexuais, portanto, da acção do sistema imunitário.

Numa mulher, por exemplo, uma reacção de stress pode elevar de 5 para 8 o nível da prolactina, hormona que estimula o aleitamento, enquanto que o nível das hormonas que estimulam a actividade sexual baixa consideravelmente, o que está conforme com o programa de reacção de alarme do stress: bloquear as actividades que não são prioritárias para a reacção de ataque ou defesa do organismo.

Ora, em caso de emergência, entre essas actividades que não são prioritárias está a actividade sexual.

Não se trata aqui de um quadro de desequilíbrio hormonal, mas de uma alteração ocasional orientada para uma reacção. Ora, esta alteração continuada aparece no domínio do cancro: há muito tempo que é conhecida a relação entre a prolactina e o cancro da mama.

Isto demonstra quanto é forte a dependência do nosso organismo do seu meio ambiente e ajuda a explicar porque é que toda a acção terapêutica que não tenha em conta a relação entre o paciente e o seu meio ambiente próximo (e a sociedade em geral) está votada ao fracasso.

Constata-se, infelizmente que, no domínio da sexualidade (e no conceito de certa Educação Sexual que tantas vezes se ouve reclamar para as escolas) se pratica uma informação de natureza puramente intelectual e de mera descrição anatómica que desvaloriza o papel dos sentimentos.

A ideia do amor e do erotismo não se pode desligar do sentimento de alegria e de beleza. A sexualidade não pode estar ligada ao medo, à violência, à delinquência, porque esse é o domínio do stress. Poder-se-ia dizer que isso decorre de um juízo moral que o sujeito faz de si mesmo.

É a perspectiva freudiana do juízo moral do sujeito. Há casos em que será. Mas talvez haja um outro factor determinante mais profundo: a verdade do sentimento e a ausência de qualquer restrição mental na comunicação afectiva pessoal.

Jean Maisonneuve num estudo sobre os Sentimentos, da colecção PUF, diz, citando Scheler, que o amor, para além da dimensão sexual, que também o integra, é sempre uma escolha pessoal, uma intenção que nos lança espontaneamente para o outro.

A escolha é aquilo que distingue o amor da simples atracção sexual, que também a integra. Escolha que implica o desejo de não se acabar. E implica também a revelação do outro: “Diz o amante à amada: torna-te no que tu és”. O amor é, de si, um diálogo e uma revelação progressiva. É assim que Mounier descreve o amor, na perspectiva existencialista, como um dom e não uma posse.

Obviamente que o chamado amor mercantil não é amor; é apenas uma descarga de tensões biológicas.

Regressando ao tema inicial, digamos que os cuidados mais sofisticados numa maternidade podem não ter qualquer utilidade psíquica para um recém-nascido, porque ele está geneticamente preparado para outro tipo de papel com uma única pessoa, a sua mãe.

E a história mostra o que pode acontecer quando não se respeita a natureza, se raciocina apenas em termos de técnica ou de ideologia e se descuram as leis biopsicológicas.

Houve monarcas que tentaram suprimir estes comportamentos sociais inatos em crianças, privando-as da mãe, de ternura, de comunicação, de linguagem. Mas, mesmo que todas as condições de alimentação e de higiene estejam reunidas, tais privações são fatais para o ser humano. Todas as crianças tratadas desta maneira estiolam e finalmente morrem.

Pensar a vida é um estímulo e uma descoberta permanente. Amar a vida é uma maravilha. Atentar contra a vida é uma desgraça.




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