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Carta aberta ao Sr. Primeiro-Ministro que vamos ter

Disso da política não percebo muito. Mas tenho cá a ideia de que, quando pela primeira vez tomar contacto com a cadeira lá de S. Bento, os problemas que vai ter pela frente para resolver serão tantos que até lhe vai ser difícil saber por onde começar. Esta carta pretende, tão só, dar uma pequena ajuda.

N/D
16 Fev 2005

Não é grande, mas para quem vai ter, – ou até já as sente – tantas preocupações, é alguma coisa.
Como V. Ex.a muito bem sabe, anda por aí um monstro à solta – os funcionários públicos e os reformados – que incomoda muita gente. Esta coisa das reformas, de que tanto se fala, é uma chatice. Os reformados, sejam eles funcionários públicos, ou não, deixam de trabalhar, e o dinheiro para que possam viver lá lhes vai, mês a mês, cair nas mãos.

Uns, claro, trabalharam uma vida e é justo que assim seja. A aposentação, ou a reforma, pois o nome é secundário, que a realidade é a mesma, é de facto uma recompensa merecida, no fim de muitos e muitos anos de trabalho. E, quem descontou muito recebe uma reforma maior, quem descontou pouco recebe-a mais pequena.

Aplica-se aqui o velho ditado:

– Para tal trabalhito, tal dinheirito. Às vezes, quanto ao trabalhito, até não é bem assim. Mas!… Tudo bem. Nem haverá muito quem esteja em desacordo. E quanto ao mais ou menos dinheirito, isso do somos todos iguais até já passou de moda.

Mas há por aí uma classe – a dos políticos – que nem trabalha muito, (há quem diga que até: não fazem nada) mas que é a responsável pela engorda do monstro. É que esses senhores também se meteram dentro do tal bicho. E sentem-se lá muito confortavelmente. Alguns, lá dentro, (reino do monstro) são autênticos Marajás.

E o pior da questão, é que os operários, os agricultores, os trabalhadores por conta própria e os funcionários públicos em geral, para terem a reforma, (pertencerem ao reino do monstro) trabalham muitas dezenas de anos, e só a partir dos sessenta ou sessenta e cinco é que têm a tal reforma, ou então, se ficam doentes e inválidos, para receber o tal dinheirito passam não sei quantos calvários para que as juntas médicas, enfim, lhes atribuam o direito à reforma ou aposentação por invalidez. Chegar lá é um verdadeiro tormento.

Mas a tal classe, não. Há por aí uma série deles – autarcas, deputados, etc – aos quais o tempo conta a dobrar. Cada quatro anos, conta-lhes oito. Meia dúzia, dá logo doze. Dez, dá logo vinte. E por isso temo-los por aí, quantos e quantos ainda cinquentões, e talvez até quarentões, cheios de saúde, a receber pensões de luxo, verdadeiros Marajás.

Sim senhor! Assim é que é! É preciso aumentar a idade das reformas! A dos outros, claro! A desses senhores, não! Mas logo se verá!

É óbvio que não estou a referir-me a todos, pois há por aí muito boa gente que, no fim dos mandatos, regressa aos anteriores postos de trabalho, e não faz uso das mordomias que as leis que os senhores deputados fizeram para benefício das nomenclaturas do sistema, lhes garantiriam, se o quisessem. Afinal, gente boa ainda anda por aí muita, graças a Deus. O oportunismo não é mal que se tenha generalizado.

Mas é de perguntar:

– Será que a função de um vereador duma Câmara Municipal é mais perigosa do que a dos Engenheiros; dos Directores de Serviço, dos Chefes de Divisão dos Administrativos ou dos Cantoneiros? Será que a função dum Deputado é mais penosa (e mais produtiva) do que a de qualquer funcionário da Assembleia da República? Isto para não estabelecer comparação, quanto ao perigo, com os militares e com as forças de segurança.

Senhor futuro primeiro-ministro:

– Para meter ordem na casa, ponha os políticos a dar o exemplo e verá que algumas medidas duras que terá de tomar, serão por certo bem aceites, ou pelo menos compreendidas pela população em geral. Comece por aí a emagrecer o monstro de que tanto falam os economistas. Não se esqueça de que foram eles – os políticos – quem engordou o tal bicho.

Se começar por eles a dieta do emagrecimento, deixam de ter força para alimentar o monstro e ele definha normalmente. Se ninguém o engordar, ele não cresce. Comece por aí! Se puder, moralize o sistema! Verá que o bicho – o tal monstro – de que tanto se fala, não é a causa principal de quase todos os males, embora seja essa a mensagem que se quer fazer passar. Sabe-se lá porquê!

Se os obrigar a fazer dieta e os impedir de alimentar o bicho, ou de se meterem dentro dele para o fazer maior, verá que ele acaba mesmo por ser inofensivo. Se for por aí, (será que o deixam!) acredito que chegue longe! E daqui a quatro anos volta a ganhar!




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