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818. Meu caro Zé:

1Em época eleitoral, é lícito perguntar: – Como se vota, hoje, no país? Como votas tu? No homem ou no partido (ideologia)?

N/D
16 Fev 2005

Se perguntares, por aí, ao cidadão comum, em quem vai votar, a resposta é, na generalidade:

– Voto Santana, Sócrates, Portas, Jerónimo, Louçã…

E não no partido que eles representam. Os próprios candidatos, não atacam políticas, atacam-se a si próprios. E, assim, se vota mais no homem que no partido (nos programas, propostas, intenções, princípios ideológicos).

Longe vai o tempo, meu velho, das lutas acesas entre esquerda e direita, entre comunismo e fascismo! E à maioria dos eleitores pouco importa que Sócrates, por exemplo, seja pouco socialista ou Santana muito liberal!

E fia-se mais nas promessas que fazem, mesmo que irrisórias (Sócrates a prometer uma pensão extraordinária aos 300 mil idosos em situação de maior penúria ou recuperar 150 mil empregos, como Santana a prometer um abatimento fiscal aos casais que tiverem um segundo filho ou a possibilidade dos estudantes pagaram os cursos quando já trabalharem!)

E, se descermos aos restantes candidatos, a saga repete-se: de promessa em promessa até à frustração final nas urnas. Porque nunca tanto a demagogia e os processos de boas intenções dominaram a actividade política e a postura dos candidatos (seja a que poleiro for), em épocas eleitorais!

2. Ora, caro Zé, o que, realmente, vende em política não é o programa, a proposta, a intenção, o princípio ideológico, mas o cabeça de lista, o candidato, mesmo que de fora! O que vende mesmo é a embalagem, o papel e a fita de embrulho e não o que ele contém. Não vende o conteúdo, vende o continente!

E, então, olha para o que te digo, esta prática de votar mais no homem e menos no partido acarreta sérios riscos para a governação e óbvia frustração para o eleitor. Até pela constante promoção dos incompetentes e menos capazes.

Os exemplos abundam, ao longo dos anos, no espectro político nacional, levando mesmo à fuga de muitos militantes, traídos pelos desvios ideológicos e governativos dos chefes!

E com esta perigosa e abusiva prática, o eleitor depressa deixa de votar em valores (um dia destes, caro Zé, havemos de bater um papo sério sobre valores, hoje) e, facilmente confunde social-democracia com democracia-cristã e socialismo com comunismo!

Os próprios candidatos e os cartazes que os anunciam, como a linguagem que usam, tais princípios varreram da sua propaganda!

Depressa, meu velho, assim chegamos à triste conclusão: se a escolha do voto vai mais pela cara do candidato, o seu visual, a sua simpatia, o seu verbo fácil, a sua preferência futebolística, a cor da sua gravata… e não pela força das suas convicções, a clareza dos seus princípios e valores, a inovação das suas propostas governativas e o futurismo do seu programa eleitoral… então, a coisa está preta!

Ora, repara: já te preocupaste com o que está por detrás do candidato bem encadernado, simpático, bem falante? Se é o socialismo, o comunismo, o reformismo, o liberalismo, o revolucionarismo? Se é a defesa do aborto, da eutanásia, da união de homossexuais, da ordem, da família, da maternidade?

Além de que, os homens passam e as ideologias permanecem, embora muitas vezes, ao mudar, os homens tentem mudar a ideologia. Por exemplo, Mário Soares, (laico, republicano e socialista), um dia, já meteu o socialismo na gaveta e, recentemente, Freitas do Amaral (católico, apostólico e romano) virou costas à democracia-cristã!
Por isso, caro Zé, votar no homem é quase sempre votar no escuro, na imprevisibilidade!

É votar nos valores que não defendemos! É votar contra nós próprios!

Por isso, muito cuidado, para que não vires contra ti próprio a tua arma que é o voto! E não te queixes, depois, ou não digas que te não avisei!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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