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Católicos com pluralidade de opções políticas

O próximo acto eleitoral, a que todos os cidadãos são chamados, reveste-se de particular importância num tempo de crise como o que estamos a viver. Como recordavam recentemente os nossos Bispos, «os problemas que o País sente não se resumem à presente crise política; esta é, talvez e apenas, o seu efeito e um dos seus sintomas.

N/D
15 Fev 2005

E por isso a etapa democrática que agora começa não pode limitar-se a resolver uma crise política, mas deve enfrentar, com serenidade e lucidez, os problemas de fundo do país, apresentando para eles soluções credíveis e viáveis a serem escolhidas pelo voto dos portugueses». Destas palavras deduz-se não só a necessidade de todos participarmos com a força do voto, mas também a de dar o nosso contributo para a escolha das soluções mais credíveis e viáveis.
Durante muito tempo foi-se difundindo a ideia de que os cristãos deviam cerrar fileiras mesmo no campo político. A própria Doutrina Social da Igreja se apresentava como uma terceira via “entalada” entre as propostas liberais e marxistas. Bastará recordar a Rerum Novarum de Leão XIII que, depois de fazer uma crítica sistemática da solução socialista (marxismo) e menos sistemática mas não menos contundente do liberalismo, apresenta a verdadeira solução, aquela que a Igreja propõe. Dessa atitude surgiu a democracia cristã, traduzida em partidos políticos espalhados por muitas nações europeias.

Contudo, João Paulo II veio clarificar a situação e acabar com os equívocos: «A Doutrina Social da Igreja não é uma “terceira via” entre capitalismo liberal e colectivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas… O seu objectivo principal é interpretar estas realidades, examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensino do Evangelho».

Por isso, a Igreja «não propõe sistemas ou programas económicos e políticos, nem manifesta preferências por uns ou por outros, contanto que a dignidade do homem seja devidamente respeitada e promovida e a ela própria seja deixado o espaço necessário para desempenhar o seu ministério no mundo» (SRS 41).

Portanto, à Doutrina Social da Igreja não compete dar soluções técnicas, mas definir critérios éticos capazes de não só interpretar mas também avaliar a realidade na «sua conformidade ou desconformidade com as linhas do Evangelho».

A mediação concreta tem de ser feita pelos cristãos empenhados na construção da sociedade. Como é sabido, geralmente para cada problema há várias respostas técnicas. Perante esta realidade diversificada, típica das sociedades democráticas, aos cristãos apresenta-se uma pluralidade de escolhas, que incluem todas as soluções que são eticamente legítimas: «Nas diferentes situações concretas e tendo presentes as solidariedades vividas por cada um, é necessário reconhecer uma variedade legítima de opções possíveis.

Uma mesma fé cristã pode levar a assumir compromissos diferentes» (OA 50). O cristão, porque cidadão, confronta-se então não apenas com a sua consciência cristã, «que o deve guiar sempre» tanto na realidade espiritual como temporal (AA 5), mas também com a sua sensibilidade para aquele problema concreto e com as suas solidariedades.

Porque esta situação de pluralismo foi e ainda é hoje, por vezes, motivo de algum receio, o receio da divisão frente a um mundo de problemas que urge atacar com eficácia, o Concílio deixou a receita: «Muitas vezes, a concepção cristã da vida incliná-los-á para determinada solução, em certas circunstâncias concretas. Outros fiéis, porém, com não menos sinceridade, pensarão diferentemente acerca do mesmo assunto, como tantas vezes acontece, e legitimamente.

Embora as soluções propostas por uma e outra parte, mesmo independentemente da sua intenção, sejam por muitos facilmente vinculadas à mensagem evangélica, devem no entanto, lembrar-se de que a ninguém é permitido, em tais casos, invocar exclusivamente a favor da própria opinião a autoridade da Igreja. Mas procurem sempre esclarecer-se mutuamente num diálogo sincero, salvaguardando a caridade recíproca e atendendo, antes de mais, ao bem comum» (GS 43).

João Paulo II vai mais longe. Alerta-nos para a tentação do desencanto com a política ou com os políticos. Nada justifica o absentismo quer nos actos eleitorais quer nas várias instâncias e estruturas que possibilitam a participação activa dos cidadãos: «As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o cepticismo nem o absentismo dos cristãos pela coisa pública» (ChL 42).

O projecto social cristão não é um projecto concreto. É antes uma preocupação permanente e constante pelo bem comum, uma responsabilidade solidária por todos, o empenho sistemático na construção da “cidade nova”. De novo Paulo VI nos ajuda a perceber o que nos é pedido: «Torna-se urgente reconstruir à escala da rua, do bairro ou do aglomerado ainda maior, aquela rede social em que o homem possa satisfazer as necessidades da sua personalidade… Construir a cidade, lugar de existência dos homens e das suas comunidades ampliadas, criar novos modos de vizinhança e de relações, descortinar uma aplicação original da justiça social, assumir, enfim, o encargo deste futuro colectivo que se pré-anuncia difícil é uma tarefa em que os cristãos devem participar.

A esses homens, amontoados numa promiscuidade urbana que se torna intolerável, é necessário levar uma mensagem de esperança, mediante uma fraternidade vivida e uma justiça concreta» (OA 11-12).

Para a realização de uma cidade nova (dimensão ética) há muitos caminhos (dimensão técnica). Cada cidadão deve optar por aquele que melhor se coaduna com a sua leitura da realidade. O que não é legítimo a ninguém é ficar parado à espera da solução ideal, porque as soluções ideais não existem neste mundo. E também não é legítimo ficar pela mera denúncia inconsequente. Isto é, não podemos ficar-nos pelo ainda não do Reino, mas devemos, sobretudo, valorizar o já do Reino de Deus, isto é, aqueles valores e potencialidades já presentes mesmo que nem sempre sejam evidentes (EN 70).

Este exercício de cidadania e de amor ao próximo obriga, por um lado, a combater a ideia de que a política é um campo de «necessário perigo moral», pois esta é «apenas» mais uma actividade humana, também ela limitada e carregada de imperfeições, e, por outro, a saltar para o terreno do jogo político e aí conjugar esforços e apresentar soluções para a construção sempre renovada de um mundo que será sempre provisório, mas no qual todos devem poder viver com a melhor qualidade de vida possível.




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