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A política e os políticos

Antes das eleições legislativas escrever um artigo com o título “Política e os políticos”, por certo que me vão dizer que eu, como padre, não me devo meter nisso. De facto, a nossa democracia ainda está tão partidarizada (não politizada), que seria, talvez, melhor não me meter nisso.

N/D
15 Fev 2005

No entanto, ainda os emigrantes não tinham o direito ao voto autárquico, já eu o reclamava; ainda os emigrantes não podiam votar para as legislativas, já eu o reivindicava; ainda os portugueses fora do país não podiam eleger o Presidente da República, já eu denunciava que era uma injustiça e recebi, mesmo, de forças ditas da esquerda, o nome de fascista e reaccionário.
Sempre fui (como ideal) pela democracia de base, isto é, não partidarizada.
Sempre acreditei que a democracia ainda é o processo político menos imperfeito.

Sempre defendi que os coxos (que ainda todos somos), necessitam dos partidos políticos, como muletas, para prosseguir o caminho.

Reparemos que uma minoria muito ínfima está filiada em partidos políticos. Que vemos nas manifestações sempre os mesmos (ou mais os mesmos); que ao lado dos eleitos (ou possíveis) vão andando aqueles que (do poder) esperam alguma coisinha.

Por muito tempo ainda, os partidos políticos vão ser precisos. Mas cada vez menos e cada vez menos partidos. Basta olhar para o polular partidário após o 25 de Abril e verificar quantos continuamos a ter hoje. E se inventam mais este ou aquele, não vingam (basta relembrar o PRD, proposto por Ramalho Eanes e o recente PND, proposto por Manuel Monteiro).

Alguns partidos, desde o 25 de Abril, já evoluíram; isto é, já fizeram uma caminhada. Basta lembrar o Partido Socialista, o PSD e o PP (CDS). Imutável parece estar ainda o PCP, mesmo que o “muro da vergonha” tenha já caído há anos.

Por aquilo que temos visto, o “disco duro” da política anda do centro para a esquerda e do centro para a direita. E não passa daqui. Sai um e entra outro. Sai o segundo e entra o primeiro e vice-versa. Parece que estamos fadados a não querer nada com os extremos. Tendemos para o eterno equilíbrio das coisas. E, neste caso, das coisas políticas.

Aqui há muitos anos, num dia de confissões, uma velhinha (83 anos), preocupada ainda com as eleições, pergunta-me no fim da confissão em que partido era melhor votar lá na sua aldeia. Olhe, vote naquele que ama mais a sua terra e mais tem feito por ela, respondi eu. E lá foi votar, não sei em quem, nem em que partido.

Anda-se, por aí, desencantado com a política (os políticos). Até já afirmam que batemos no fundo. Pelos anos oitenta já andava eu a ouvir a mesma coisa. Escrevi nessa altura no jornal dos emigrantes (Diálogo do Emigrante) que “quem mata a política são os políticos”. E se agora já no terceiro milénio nos continuamos a lamuriar, por certo que tenho de dizer a mesma coisa, ou coisa semelhante: “quem estraga a política, são os políticos”.

Recordo-me de ter proposto um dia que seria necessário que a nível superior houvesse um Curso virado para os políticos, onde os mais diversos temas e problemas de ordem pública fossem debatidos e reflectidos, criando-se uma especialização nessa área. Se não estou em erro, na França existe este Curso Universitário.

Anda-se por aí muito aflito, ao verificar-se que a sociedade ocidental, cada vez mais, se está a afastar dos parâmetros cristãos que sempre trilhou. Nem a Constituição Europeia quis no seu interior a referência aos valores cristãos, donde nasceu. O Papa vem chamar a atenção aos políticos espanhóis para o perigo que a Espanha está a correr, impondo o laicismo à sociedade civil. Qualquer dia fará o mesmo com Portugal (nação fidelíssima).

Já estou como aquela senhora que, há tempos, numa rádio, barafustava contra a política e sugeria que nos deixássemos dos partidos, mas que se fossem buscar as pessoas mais válidas do país em cada área e se formasse um governo com eles. Seria o tal Governo de “salvação nacional”? Às vezes, apetece-me aconselhar a mesma coisa. Eu, que nunca me parti em partido nenhum, mas que gostaria de estar na política de corpo inteiro: com o meu corpo e a minha alma. Parece-nos, muitas vezes, que no mundo dos cristãos, só anda nestas coisas da política o corpo, andando a alma noutras paragens.

Não nos admiremos, pois, se a política desemboca em caminhos de laicismo e não percorre com serenidade e respeito, os caminhos da laicidade. Cada vez mais nos convencemos, mesmo em política, que somos um país de baptizados, mas não de cristãos. E quando os baptizados se tornarem cristãos, então, até a política é outra. Experimentemos, se houver coragem para isso.

Os nossos Bispos até têm redigido mensagens interessantes sobre reflexão sócio-política. Pequenos livrinhos (brochuras) que se encontram em muitas livrarias (mormente nas de cariz eclesial) e que se destinam a orientar os cristãos nas suas opções políticas, na hora da verdade. Dificilmente se encontram estes livros em casa das nossas famílias cristãs. As mensagens deste tipo não têm passado. E, pelos vistos, dificilmente passarão. De quem é a culpa?

Parece que estamos num círculo vicioso. Não se está aberto a esta reflexão política, porque não se tem cultura; não se adquire cultura, não se estando aberto a este tipo de reflexão.

Seria bom, após trinta anos de democracia pluralista, que a nossa política fosse mais despartidarizada. Sabe-se que muito boa gente não se sente bem nessa espécie de colete de forças. Gosta de pensar sem amarras e de dizer livremente aquilo que lhe vai na alma. Ainda não estamos preparados para isso? Talvez não. As amarras continuam? Certamente. Mais subtis que antigamente? Não há dúvidas.

Temos a política que construímos. Temos os políticos que merecemos. Sair disto, é urgente.




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