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A origem do beijo – Compreender a vida (III)

Esta necessidade de atenção e carinho simultânea com a alimentação é muito importante nos primeiros tempos do recém-nascido. Quando uma criança não recebe suficiente amor e segurança enquanto é alimentada, desenvolve perturbações no seu comportamento geral e, pelo menos, no seu aparelho digestivo. Há casos em que, mais tarde, podem surgir problemas de peso, porque elas passam o tempo a comer, como forma de compensação.

N/D
15 Fev 2005

O alimento tem uma grande influência em todos os domínios. A sua estreita relação com todos os sentimentos de procura de prazer pode vir a revelar-se em numerosas atitudes e comportamentos, desde o comportamento social, o comportamento sexual, o comportamento profissional, o comportamento familiar…
Para alguns fisiologistas do comportamento, como Wickler, o modo de alimento boca a boca que encontramos, por exemplo, nas aves, sublimou-se num ritual social que deu origem ao beijar-se na sociedade humana. Algumas aves dão comida no bico não só aos filhos mas também ao parceiro sexual.

E quando acontece uma disputa entre duas aves adultas de certas espécies, a que é ameaçada comporta-se, muitas vezes, como a avezinha que pede comida. Esta atitude infantil funciona como estímulo desencadeante do instinto de protecção, que toma o lugar do instinto de agressão e assim se evita a luta.

Sem que haja realmente oferta de comida, a ave que assume o comportamento de avezinha que pede comida condiciona o seu agressor a uma atitude de ave-mãe, que então gentilmente bica na ave que ia atacar, limpa a sua plumagem e acaricia-a na região do pescoço. São meios de comunicação entre elas que contêm um elemento de ternura e que asseguram a coesão do grupo.

Também no homem se observa um tipo de comportamento infantil quando procura obter a simpatia de outro (e há quem o saiba explorar de forma habilidosa, tirando partido desse mecanismo: é o que o povo costuma designar por “saber levar a água ao seu moinho” ou então as “falinhas mansas dos políticos em tempos de eleições”).

Há comportamentos que assumem vários sentidos. Por exemplo, a sexualidade serve vários objectivos simultaneamente: serve para a reprodução, serve para a coesão social, serve para reduzir tendências agressivas enquanto fonte de prazer e de bem-estar. Imagine o leitor que chega a casa e vê a sua secretária toda desarrumada, os papéis espalhados pelo chão, desenhos em tudo quanto é sítio… E reage indignado: quem foi o tonto que fez isto? E, de um canto da sala, aparece a filhita pequena, com o seu ar inocente, que sorri e diz: fui eu… Foste tu?

Olha para ela… e… Pronto, deixa lá, não tem importância… Tal como na luta das aves, o agressor ficou desarmado pela atitude que pede protecção e carinho. Bastou um pouco de charme e de apelo ao seu instinto paternal e toda a cólera se dissipou. Podemos dizer que, neste caso, uma parte do nosso comportamento sexual se orientou para fins sociais.

Muitos casos se poderiam citar, por exemplo, a escolha de secretária com esse perfil físico, a escolha da mulher com cara de boneca pelo homem mais velho a quem ele dá paternalmente muitos presentes…

A simpatia e favor de que gozam certos tipos de caras com traços de criança, nariz levemente levantado e olhos redondos, explica-se pelo facto de elas poderem desencadear no superior hierárquico a atitude de pai protector. Trata-se de um mecanismo biológico instintivo.

E é inútil querer suprimir certas reacções instintivas alegando que se trata de desvios de funções sexuais. Agora, com a quase obsessão de ver pedofilia em tudo quanto é gesto de afecto, tudo seria desvio sexual. Porém, não se pode ignorar um princípio fundamental e muito sábio da natureza sobre a economia de energia: a energia sexual serve vários objectivos ao mesmo tempo. É um princípio fundamental da cibernética dos organismos vivos. Sem isso, a vida não teria subsistido.




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