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O amor passa pelo estômago? – Compreender a vida (II)

Os desejos não realizados tornam-nas, mais tarde, gulosas, no sentido literal da palavra. As dependências podem vir a manifestar-se nas mais variadas formas, desde a imaturidade afectiva, a dependência das gulodices, do álcool, do tabaco, do jogo, das compras, das drogas.

N/D
14 Fev 2005

Agora, imagine o leitor como se desenrolaria o seu nascimento numa qualquer maternidade a que se desse apenas primazia à técnica. Primazia técnica que é muito importante e que tem ajudado a salvar muitas vidas. Não estamos, de modo nenhum, contra a técnica. Veja, então, como se poderiam cometer erros relativamente ao acolhimento do ser humano no seu novo meio ambiente se pensasse apenas em termos de técnica.
Em vez de um nascimento harmonioso, em vez de pousar, em primeiro lugar, o bebé sobre o corpo da mãe, para se acalmar, antes de se cortar o cordão umbilical e de deixar que ele, após a mudança de meio ambiente, contacte com o calor, com os ruidos e com as vibrações do corpo da mãe, a que se habituou durante nove meses; em vez de se deixar o recém-nascido em contacto com a sua mãe numa penumbra agradável até que cessem as pulsações do cordão umbilical; em vez disso, imagine toda a gente falar alto ao seu redor, darem-lhe uma palmada, cortarem-lhe imediatamente o cordão umbilical, a criança ser separada da sua mãe para ser lavada, medida, pesada e ir para o berçário… E tudo isto a uma luz intensa e crua e a uma temperatura muito diferente da que ela tinha no seio materno. É por isso que esses bebés têm um ar crispado em vez de um ar feliz.

Experiências feitas com animais mostram que é nas primeiras horas, nos primeiro dias, nas primeiras semanas, neste pequeno lapso de tempo da primeira infância que se forma uma grande parte do comportamento social, do comportamento sexual, da reacção aos outros e de todas as relações ligadas ao nosso balanço hormonal.

Como se sabe, só bem mais tarde é que a estrutura hormonal será ligada aos pensamentos, às percepções, às palavras e às impressões. Mas, antes que isso aconteça, já no interior do nosso cérebro o hipocampo regista e guarda a memória emocional da nossa experiência (por ex. ao ver uma cara ele diz-nos que esta cara é da Ana) e a amigdala, a ele associada, regista a tonalidade afectiva dessa memória (é a amigdala que me diz se gosto ou não gosto da Ana).

Sem essa tonalidade afectiva, ele reconhecia, por ex., a cara da sua mãe, mas não lhe dava importância… Ora, por altura do nascimento, a amigdala já está completamente formada no cérebro da criança. Por isso, ela regista o aspecto emocional de toda a sua interacção com as pessoas que desde o nascimento cuidam dela, embora ainda não tenha palavras para descrever a sua experiência, porque só mais tarde é que esses mecanismos se vão formar.

Mas não é só a criança que é directamente afectada por estes momentos e pela forma como forem vividos; também a mãe ficará profundamente marcada pelo contacto corporal com o seu filho durante as primeiras horas após o nascimento, impressão essa que, por sua vez, terá influência determinante no ulterior desenvolvimento da criança.

Igualmente as primeiras relações alimentares desempenham um papel determinante na vida do recém-nascido. Como refere McQuade, quando a criança recebe alimento, recebe, ao mesmo tempo, atenção e amor e reconhecimento da sua existência. Se se priva a criança de alimento, priva-se também de tudo o mais.

A importância de a criança começar a alimentar-se logo ao peito da mãe. É deste modo que, mais tarde, a criança tende a confundir as suas experiências alimentares com todas as suas outras experiências, não somente no que lhe diz respeito pessoalmente, mas também e, de uma maneira geral, em todos os actos de dar e receber que se desenvolvem entre duas pessoas.

Não é sem razão que certos ditados populares sugerem que o amor passa pelo estômago. Talvez isso contribua também para que algumas pessoas venham a ter, mais tarde, problemas de dependência, isto é, terem um sentimento de que a vida não lhes deu aquilo que lhes era devido e frequentemente sofram de doenças do estômago.

Os desejos não realizados tornam-nas, mais tarde, gulosas, no sentido literal da palavra.

As dependências podem vir a manifestar-se nas mais variadas formas, desde a imaturidade afectiva, a dependência das gulodices, do álcool, do tabaco, do jogo, das compras, das drogas. No fundo, aparece sempre algo que funciona como compensação de um sentimento indefinido de que lhe falta alguma coisa…




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