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Pela imprensa estrangeira

Da leitura que fizemos dos jornais estrangeiros destes últimos dias destacaríamos os seguintes assuntos: Condoleezza Rice viaja ao estrangeiro pela primeira vez depois da tomada de posse do seu cargo de Secretária de Estado da América.

N/D
13 Fev 2005

Assim começa a realização do sonho (aviso) prometido por Bush no início do seu segundo mandato como Presidente dos Estados Unidos: a luta pela liberdade do mundo.
Condoleezza Rice vai ao Médio Oriente, conversa com os chefes dos povos aí em conflito (israelitas e palestinianos) e vai ao Egipto onde decorreu a cimeira entre Sharon e Mahmond Abbas, a 8 de Fevereiro.

A esta cimeira se refere o jornal “La Croix” desse dia: «Israelitas e Palestinianos renovam o diálogo. Pela primeira vez depois de quatro anos e por iniciativa do Egipto, um Primeiro Ministro israelita – Ariel Sharon – e um Presidente da Autoridade Palestiniana – Mahmond Abbas – vão tentar progredir no caminho da paz.

Como temas deste encontro em Charm El-Cheikh, o cessar da violência e a retirada de Israel da Faixa de Gaza».

É de referir que no Togo houve um “golpe de Estado de veludo” ao qual não notei que se desse grande relevo. Talvez porque se trata de um pequeno país situado na África Ocidental entre o Benim, o Gana, o Burquina Faso e o Oceano Atlântico.

O “Le Monde”, 8 Fevereiro, a este respeito diz: «No Togo, após a morte de Gnassinghé Eyadéma, o exército coloca no poder um dos seus filhos. A comunidade internacional inquieta-se por causa do não-respeito da Constituição.

A França apela a uma eleição presidencial de acordo com a lei e coloca os seus soldados, em Lomé, em estado de alerta».

Notórias as referências feitas à regularização dos “sem papéis” começada em Espanha no dia 7 de Fevereiro , mas a que nos referiremos proximamente, em artigo dedicado fundamentalmente à imigração na Europa.

Antes de entrarmos no tema principal de hoje, convirá reflectir um pouco num assunto bem actual que nos transmite a revista “Newsweek” de 14 de Fevereiro: «A nova face do Iraque. Quererá o Ayatollah Ali Sistani usar o seu poder, para construir uma democracia ou uma teocracia?»

Eis-nos finalmente a recordar os campos de extermínio dos judeus, dos mendigos, dos desprotegidos da sorte nos locais que para esse efeito foram criados pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial.

A compreensão da mentalidade de uma boa parte do povo alemão, de vários dos seus chefes, de que Hitler é um grande reflexo e promotor, ajudar-nos-á, por sua vez, a compreender a origem do Holocausto.

A este propósito diz lan Kershaw: «Hitler é, tanto quanto seja possível conceber, um caso notável. Nos seus primeiros trinta anos de vida, foi um “zé – ninguém”. Nos restantes vinte e seis anos da sua existência, uma marca indelével na História como ditador da Alemanha e instigador de uma guerra genocida que assinalou a queda mais vertiginosa dos valores da civilização de que se tem notícia nos tempos modernos e que terminou deixando em ruínas o seu próprio país e grande parte da Europa» (autor referido na obra “Hitler, um perfil do poder”).

E ao povo alemão se referiu Annette Wieviorka no livro “Auschwitz explicado à minha filha”, além do mais, nos termos seguintes: «Então todos os alemães são culpados? Foi uma questão que se levantou depois da guerra e que continua a ser levantada hoje. Nenhum povo é colectivamente culpado.

Os alemães que se opunham ao nazismo foram perseguidos, internados em campos de concentração, forçados ao exílio. A Alemanha estava, como muitos outros países da Europa, impregnada de anti-semitismo embora os anti-semitas activos, prontos a assassinar, não passassem de uma minoria.

Calcula-se hoje que cerca de 100 000 alemães participaram activamente no genocídio. Mas que dizer dos outros, daqueles que viram os seus vizinhos judeus serem presos ou daqueles que conduziram os comboios de deportação?

O que acima de tudo impressiona é a extraordinária indiferença da grande maioria dos alemães. Os nazis anti-semitas não acusavam, na realidade, os judeus de fazerem isto ou aquilo de repreensível, mas acusavam-nos, pura e simplesmente de serem aquilo que eram, de serem judeus».

Nos dias que antecederam a data de 27 de Janeiro, dia da comemoração do 60.° aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, vários jornais e revistas se referiam ao “tsunami” dos judeus.

Deste modo, o Holocausto foi o tema central da revista “EP, El País Semanal”, 23 Janeiro: «No dia 27 de Janeiro de 1945, o campo de extermínio de Auschwitz, na Polónia, foi libertado. Logo o seriam os de Buchenwald, Dochau, ….

Ali se descobriu a evidência do maior horror vivido na Europa na sua história: uma verdadeira fábrica de morte pensada e construída pelo nazismo. Seis milhões de homens, mulheres e crianças, judeus e muitos outros, ciganos, homossexuais ou inválidos foram assassinados debaixo das ordens de Hitler desde 1933 até 1945.

Passaram seis décadas. As testemunhas vão desaparecendo, mas os efeitos de tudo aquilo ainda se sentem na ordem política, social e nos conflitos que ocorrem no mundo».

A revista “Le Monde 2”, de 29 de Janeiro, lembrou os testemunhos de Simone Veil e de outros sobreviventes. Simone Veil, que esteve presa durante um ano, entre outras coisas, dizia: «nós não éramos mais que simples números».

Alguns desenvolvimentos são feitos nesta revista, subordinados a temas sugeridos pelas palavras de alguns sobreviventes: livre no meio de cadáveres; viver num lugar de morte; a loucura monstruosa do Dr. Mengele. Em 1985, em Israel, um processo simbólico permitia aos sobreviventes das experiências feitas em Auschwitz por Joseph Mengele, jamais julgado pelos seus crimes, descrever as torturas imaginadas por este médico psicopata.

Na revista “Le Monde de l’Education” do corrente mês de Fevereiro dizia-se: «Ensinar a Shoah: da memória à história e Explicar o horror absoluto. Como transmitir aos mais jovens o conhecimento das lições a tirar do genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial: uma pesada tarefa para aqueles que dela são incumbidos».

E os jornais fizeram lembrar repetidas vezes, para que não se esqueça, a morte de muitos judeus, designadamente através do testemunho dos que viveram no meio dos seus mortos sendo, então, como eles, apenas “mais um número”.

Curiosamente, li a reflexão de Aznar vertida no jornal espanhol “La Vanguarda”, 1 Fevereiro: «Aznar compara a votação do Iraque com o Dia D da Normandia e a queda do muro de Berlim. José Maria Aznar qualificou ontem as eleições iraquianas como um facto histórico comparável aos grandes êxitos frente ao nazismo e ao comunismo».

A propósito do Dia D, o dia do desembarque dos americanos nas praias da Normandia, lembrei-me do que um colega italiano, na Universidade de Belgrado, dizia no Verão de 1976: «Se os americanos cá não vinham, hoje éramos todos alemães de segunda».

E cá continuamos preocupados com a libertação do mundo, como no início deste artigo se mencionou.

O jornal “Liberation” de 27 Janeiro, dizia: «Hoje, 40 Chefes de Estado e de Governo comemoram, com 2000 antigos deportados, os 60 anos da libertação de Auschwitz».
«Líderes de 40 países prometem que nunca haverá outro Auschwitz», escrevia um dia depois, o “El País”.

«Auschwitz 1945- 2005: a Europa reunida medita» (lia-se, no “Le Monde”).

«Europa, lembra-te! (…) sessenta anos depois da libertação do campo, a transmissão da memória dos últimos sobreviventes aos mais jovens, é um jogo determinante. (“La Croix”, 27 Janeiro).

A 5 de Fevereiro, Carlos Fuentes, no “El País”, interroga-se: «Auschwitz, nunca mais?» Nesse artigo, entre outras questões para o entendimento do que há de mais profundo a explicar o comportamento dos indivíduos e dos povos referia, transcrevendo as palavras de Hobbes no “Leviatan”: «A paixão, cuja origem é a soberba e a vanglória conduzindo à loucura e originando, muitas vezes um sentido de inferioridade», escreve Hobbes, como se tivesse conhecido Hitler e Estaline.

Com razão invoca Hobbes a Tucídides como o modelo de historiadores, todas as vezes que revela as paixões secretas como os factores determinantes da vida social e política: «As paixões humanas que, tácitas ou raras vezes discutidas, sem embargo, determinam as acções públicas. Busquem-se estas paixões primárias em defeitos físicos, fracassos amorosos e intelectuais, sentido de inferioridade, humilhações na infância. O importante é saber como se traduzem, seguindo Hobbes, em políticas públicas».

Muito embora já tenham ocorrido outros genocídios, por exemplo no Ruanda e Burundi, no Sudão, etc, etc, os jornais chamaram a atenção dos seus leitores, as televisões dos seus espectadores para aquilo que os políticos, e não só, iam lembrando.

Assim, vamos ver se de facto não há mais horrores como estes, nem parecidos; vamos ver se os homens vivem como irmãos! Como irmãos? Quer dizer, como IRMÃOS. É que, na verdade e segundo a linguagem bíblica, Caim (o mau) matou Abel (o bom) condenando-nos a todos a sermos seus descendentes (de Caim).

Que Deus nos ajude!




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