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O riso e a política

O rir é uma forma de expressão. É uma linguagem universal, atributo específico do género humano. Por vezes, e tão eloquente como a fala e muito mais concisa.

N/D
13 Fev 2005

E tão forte a sua expressão, que pode declarar a paz ou a guerra. Pode matar ou salvar, ser veneno ou remédio. Quantos desânimos ou desesperos se levantaram com um sorriso amigo, sereno, paternal, quantas esperanças se mataram com um riso venenoso de escárnio e cinismo.
Há o riso, o sorriso e a gargalhada. O risinho corrosivo e verrinoso de Eça de Queirós; a gargalhada saudável, tabernal e desopilante de Camilo Castelo Branco; e o sorriso inteligente, nobre e respeitoso de António Vieira.

Três geniais escritores, rindo na sua prosa, contribuíram a seu modo e nos seus tempos, rara agitar e definir a vida nacional. Risos pedagógicos. Porque “a rir se corrigem os comportamentos”, já diziam os Clássicos.

Rir perante os defeitos corrigíveis, individuais ou da sociedade, tem o efeito da vergastada sensivelmente impiedosa. É a vergonha pública castigada num movimento gutural.

“O riso é uma filosofia”, afirmou Eça de Queirós. Então o riso é, afinal, uma coisa muito seria. Demasiado séria para ser usada ou abusada descontroladamente.

Também na Política? Evidentemente. E vamos, de novo, ao inesgotável Eça: “A melhor maneira de deitar abaixo um Governo é rir três vezes à sua volta”. “Três vezes” significará uma quantidade continuada de crítica galhofada, brejeirices, ridicularização.

Eça viveu nos conturbados tempos das lutas liberais, na segunda metade do século XIX. E hoje? Aqui e agora? O que aconteceu com este Governo de quatro meses, há pouco demitido?

Logo desde, a nomeação do primeiro-ministro, ninguém das Ooposições e vários eminentes saídos da hibernação política o quiseram levar a serio. Riam-se do nome, do passado, da acção, do estilo.

Sem dar sequer um tempo de “estado de graça”, aproveitavam avaramente todos os pretextos, pequenos deslizes, aparentes contradições, as dificuldades normais, cinicamente definidas como “trapalhadas”, para aumentar a gritaria, galhofando.

Não foi pela falta de medidas de governação, algumas corajosas e necessárias, que o Governo caiu. Foi muito mais pela ridicularização e empolamento de uma “Contra-informação” ao vivo, bem gerida pela gula consumista dos “media”.

Desde a tragédia da “tanga”, transformada em paródia nacional, que se adivinhava um futuro risível. Nunca as relações institucionais entre Órgãos de Estado e entre os cidadãos e a política bateram tão baixo.

Se os problemas do País eram tão graves e não se previam soluções credíveis, soberana ocasião perdeu o nosso Presidente para usar o bisturi e avançar na operação. Grandes males, grandes remédios.

Mas dobrado à onda assassina da gargalhada, preferiu “baralhar e dar de novo”, descarregando no povo toda a responsabilidade. E se, desta vez, o que rir no fim não for o que ri melhor?! Será mesmo de rir!?

Tivesse o Senhor Presidente a coragem e o patriotismo de eleger um Governo de “Salvação Nacional”, escolhendo os mais competentes. E teria alcançado um duplo sucesso: – a solução mais provável, mais rápida e incontestada dos problemas nacionais; e uma certa domesticação, em quarentena, dos excessos partidários.

Se teve o arrojo, inédito, de demitir um Governo de maioria absoluta, foi pena que não tentasse a solução radical. E talvez o seu bom sorriso acendesse outros tantos sorrisos no rosto ansioso dos Portugueses. Só quando todos sorrirmos de trabalho, honradez e amizade, é que deixaremos de rir de nos próprios.

Na rábula de uma “Revista à Portuguesa” nos inícios do séc. XX, foi a julgamento um horrível criminoso. Cada Juíz ia propondo a sua sentença: – degredo, prisão perpétua, condenação à morte… E todos os colegas respondiam: – É pouco! Levanta-se o Presidente e sugere: – Façamo-lo Rei de Portugal. E logo todos em coro: – É muito!

Era um castigo demasiado pesado, naquele tempo, suportar tantas “trapalhadas” da política.

Será que também começa a ser “muito” chefiar um Governo de Portugal? Não me apetece rir.




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