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Compreender a vida

Agora que volta à ordem do dia, na campanha eleitoral, a estafada e recorrente cassete do anúncio do referendo ao aborto, anunciado pelo PS e a sua “esquerda moderna”, para não ficar atrás da extrema esquerda, apetece perguntar: que trauma jacobino tem a Esquerda com o aborto?

N/D
13 Fev 2005

É que o modo como se fala disso não parece disfarçar uma atitude de vingança e uma insensibilidade perante este drama humano, sem haver qualquer preocupação sobre a certeza do que estão a falar.
Fala-se do aborto como se fala de um entrave que é preciso vencer, custe o que custar. Ora, falar do aborto ou da interrupção voluntária da gravidez é falar da interrupção voluntária da vida humana.

E isto é muito grave.

Dito com o finca-pé e com a agressividade com que o fazem e dando-lhe o carácter de prioridade política como quem defende a felicidade substancial de alguém, mostra que há em causa outros valores que não o direito à vida.

É preocupante que uma sociedade se autodestrua assim. Ou não sabem do que falam (e então deviam ter a humildade intelectual de estar calados) ou há uma obstinada insensibilidade de consciência perante este drama e uma inversão de valores, o que prefiro não acreditar.

Que o povo os julgue.

Ao nível científico, é doutrina adquirida e clara quando começa o ciclo de vida do homem: “No início, existe, obviamente, o ovo fecundado. Decorrida uma semana, a sua rápida divisão transformou esta célula num aglomerado de centenas delas, que rapidamente se organiza numa extremidade cefálica e noutra caudal…”, assim escreve a Enciclopédia Médica “O Cérebro e Sistema Nervoso Central”, publicada por uma equipa de especialistas do Kings College, Londres, descrevendo a evolução do sistema nervoso central e das suas funções até morrer, até terminar o ciclo de vida.

Ciclo de vida que não tem partes mais ou menos importantes, mas apenas diferentes. Ora, que se saiba, essa equipa de cientistas não tem preocupações religiosas nem filosóficas, mas apenas científicas.

Convenhamos que já é antiquado argumentar a favor do aborto dizendo que os que estão contra o aborto o fazem meramente por uma questão religiosa ou filosófica. Isso é velho e estafado jacobinismo. Que a Igreja esteja contra o aborto não me surpreende nada, porque o seu Deus é o Deus da natureza.

E, que se saiba, a religião apenas reforça os argumentos da ciência, abrindo-os a um outro sentido e outra dimensão. Nem se poderia entender a religião contra a ciência.

Mas, no fundo, trata-se tão somente de uma questão de ciência e de ética da vida. No tempo em que já se avança com a investigação de uma ética da natureza ligada aos nossos sentimentos, que se expressam na saúde ou na doença conforme eles são, invocar o argumento religioso-filosófico para justificar o aborto já é um anacronismo.

Também já não faz sentido invocar como argumento a favor do aborto que a mulher tem direito a decidir sobre o seu corpo e que pode não querer continuar a trazer em si o filho.

Em primeiro lugar, o embrião ou feto não faz parte do seu corpo, é geneticamente diferente e independente. Ela é apenas, na sua condição nobre de mulher e mãe, a geradora e portadora de mais uma vida humana durante os primeiros 9 meses do seu ciclo de vida, vida humana que traz a sua marca para sempre: enquanto mulher, partilha da sua herança genética e enquanto mãe traz a marca do seu afecto e da sua personalidade, que jamais se apagarão.

Em segundo lugar, ainda na sua condição de mulher, não se pode desligar a transmissão da vida da expressão sexual, embora a sexualidade seja uma expressão humana abrangente. É a nossa condição biológica.

Mas, não vamos falar, hoje, de coisas tristes. Falemos antes da compreensão da vida. Gostava de convidar o leitor a ver outra face da questão: compreender a vida no modo de encarar a chegada do recém-nascido ao novo meio ambiente, após o parto.

Ninguém hoje duvida que os primeiros meses da existência humana são determinantes para o futuro comportamento humano. É nesta idade (e provavelmente bem antes do nascimento) que se formam as ligações nervosas cerebrais mais importantes.

É também nesta idade que se dão as primeiras percepções e as primeiras relações com o meio ambiente, que irão ser marcantes na sua vida. Sendo assim, era de esperar que a transição do bébé do meio materno para o nosso meio ambiente fosse feita com toda a delicadeza e precaução.




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