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Os vendedores de curas religiosas

Só a expressão pessoal é raiz e suporte do carisma

N/D
11 Fev 2005

Há dias, fui encontrar na caixa de correio um panfleto publicitário que me deixou preocupado pelo que significa e pelo risco que tem de atrair incautos à armadilha: alguém se diz mediador entre os anjos e os humanos e se apresenta capaz de dar conselhos e curar doenças em seu nome.

“Os Anjos falam e eu revelo, oriento, aconselho sobre questões, demanda, invejas, amores, vícios, questões em geral”, diz o panfleto. Os instrumentos que usa para falar com os anjos são: “cartas aos anjos, tarô, búzios, energia das mãos e águas”.

As curas que faz são: “curas através de cristais, rezas e simpatias para cortar vícios, stress, filhos problemáticos e para todos os fins, faz união do amor, casamento e quem te perturba”. Instalado num centro urbano considerado de elite, sinal de que o negócio é bem rentável e os clientes têm posses para pagar bem, só atende por marcação telefónica.

Talvez a maioria das pessoas leia isto e o mande para o caixote do lixo, mas alguns haverá que acreditam nestes oráculos.

A verdade é que isto é significativo de um sentimento bastante generalizado que se vive hoje e do que está por detrás dele: uma desorientação de ideias e de sentido da vida, um profundo sentimento de insegurança que se revela também na descrença dos meios tradicionais de cura e resolução dos problemas da vida, um estado emocional que procura outras instâncias para além do limiar visível da realidade e também um certo descrédito da imagem das igrejas mais tradicionais e ritualizadas que até hoje funcionaram como suporte psicossocial da sua confiança de viver.

Pegando no tradicional modelo das religiões de se dizerem mediadoras entre a divindade e os homens, estas novas pitonisas ou mercadores de curas religiosas dizem-se credenciados para falar com os anjos, escrevem-lhe “cartas” ou usam desenhos simbólicos ou conchas perdidas nas praias para falar misteriosamente com eles (de modo a que os clientes não entendam essa cripto-linguagem).

Para dar suporte visual à sua mensagem, anunciam também a venda de “objectos religiosos”.

A procura de solução dos problemas no além já é da idade do homem, quando confrontado com o sofrimento e sem ter capacidade nem para o entender nem para o resolver. Mas é muito característica dos momentos de crise de valores como a que vivemos. E não há dúvida que também pode apontar para algum descrédito de imagem da igreja no momento actual, porque o seu discurso é bastante impessoal e ritualizado.

É certo que todas as instituições, religiosas ou civis, correm o risco, de tempos a tempos, de se fecharem nas suas regras narcísicas e se esqueçam que devem existir como serviço para os outros.

Veja-se a crise de sentido na política de hoje. No entanto, é justo dizer que essa interrogação começa hoje a preocupar a igreja.

De certeza que não é a muita azáfama de reuniões e mais reuniões que torna perceptível a mensagem, mas o carisma de afecto e de fé. Aquele que for capaz de ouvir os corações e os souber entender, esse será dono deles.

O que talvez falte é uma certa intuição do que está por trás da crise e a coragem de ir procurando novas soluções sem comprometer a identidade e a unidade. É que não há modelos únicos nem perpétuos. Os modelos são apenas instrumentos.

E o Direito vem sempre depois dos factos. Na minha opinião, o que o Concílio Vaticano II pretendeu trazer de novo foi inverter a polaridade de mero sentido doutrinal e institucional, sem abdicar deles, para a presença como testemunhas do mistério de Cristo. Testemunha pessoal, antes de mais (e depois também testemunha em sentido de igreja).

É que é mais fácil refugiar-se no colectivo do que ser testemunha pessoal. Talvez alguns o tenham lido com uma mentalidade formatada do que era antes e não tenham descoberto aquilo a que Bachelard chamou “o corte epistemológico” do seu novo sentido.

Uma das críticas que um célebre e polémico teólogo faz à Igreja é que a sua preocupação com o legal abafe o aparecimento do espírito de carisma. É uma observação muito subtil, que pode não ter sido bem entendida, vinda como vem de um pensador fecundo e muito organizado.

Talvez isto tenha a ver com a demasiada teorização de Jesus Cristo que, de uma pessoa passou a ser encarado e ensinado como uma doutrina. Não é que a doutrina não seja fundamental, mas desfocou-se a prioridade existencial da relação pessoal para a abordagem doutrinal, que vem sempre depois e é sempre impessoal.

Um outro teólogo não menos célebre e polémico chega, por via de uma análise muito diferente, a uma conclusão semelhante, ao analisar o modelo sacerdotal da igreja, descobrindo aí uma falta de expressão pessoal carismática em detrimento de uma expressão institucional.

Ninguém faz um poeta à força de lhe ensinar a teoria da poesia, mas talvez consiga fazer alguma coisa se o ajudar a descobrir a alma que está para além das palavras e das ideias. “Sentir primeiro e pensar depois”, dizia o grande poeta brasileiro Miguel Quintana.

É que só a expressão pessoal é raiz e suporte do carisma. Bem sei que tudo isto é bem mais complexo do que se pode dizer em meia dúzia de linhas, mas a verdade é que quem procura estes curadores religiosos o faz atraído pelo seu eventual carisma pessoal.

* Psicólogo




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