Fotografia:
Não basta sê-lo…

Não podemos a andar a representar toda a vida. É necessário deitar fora a roupagem enganadora. E ser justos

N/D
11 Fev 2005

A actual campanha para as eleições legislativas não só nos vai oferecendo emolumentos para a formação dum juízo sobre o estado da nação e o valor das forças políticas que nos pedem o voto, mas também nos serve de pasto de boa disposição com as suas expressões e os comentários que são feitos.

Afirmava há dias Vasco Pulido Valente num diário: “Vivemos actualmente no reino da ignorância e da vigarice”. E concluía o seu artigo afirmando: “Os políticos têm a cabeça infinitamente vazia, admitindo, por muito favor, que têm cabeça”.

Acredito que no mundo português, bem pequeno actualmente, existe muita gente digna e honesta, que é fiel aos seus contratos, justa nos intercâmbios que faz e nos deveres fiscais.

Basta saber que todos os pensionistas e reformados descontam, na base, o quantitativo fiscal para o Estado. Igualmente todos os funcionários públicos quando recebem o salário mensal.

Acredito também que as grandes superfícies comerciais, que recolhem a maior parte do nosso dinheiro e cobram IVA de 5 ou 12 ou 19% conforme o produto, entregam o correspondente ao Estado. Do mesmo modo, toda a gente que compra prédio ou imóvel paga sisa ou o correspondente imposto e, anualmente, paga contribuição autárquica.

Outrossim na vida particular de indivíduos e famílias há muita gente digna e honesta.
Entendo, porém, que não basta sê-lo: é necessário também parecê-lo, para que se calem as más línguas.

E cada um esteja pronto a defender a sua honra e dignidade. Isto está de harmonia com o ditado: ” À mulher de César não basta ser honesta. Também precisa de parecê-lo”.

Por outro lado, não podemos lançar lama contra a honra e o bom nome das pessoas, sem fundamento, partindo do princípio de que todos “são ladrões, injustos e adúlteros”, à maneira do fariseu do Evangelho.

Mas os dois segmentos da frase: Não basta sê-lo: é preciso parecê-lo, são reversíveis, isto é, podem inverter-se, resultando daí a frase: – Não basta parecê-lo: é preciso também sê-lo. E esta forma corresponde a uma triste realidade. Há muita gente que parece mas não é. Parece justa, piedosa e íntegra, mas não o é de facto.

Molière, escritor francês, na comédia O Tartufo, retrata este modelo de comediante falso, que, na realidade tem seguidores. Pela ocasião do Carnaval muita gente veste uma indumentária falsa que lhe confere uma nova personalidade. Terminado o mesmo, é necessário despi-la e voltar a ser o que realmente se é.

Após o entrudo vem a quaresma, tempo de verdade do ser humano e da sua vida interior. Não podemos ficar na superficialidade, mas temos de descer ao íntimo do nosso ser, onde está Deus e a consciência.

E não podemos andar a enganar-nos a nós mesmos e aos outros. Nessa profundidade, temos de escutar a voz da razão que é a voz de Deus, a chamar-nos a uma vida nova.
Não podemos andar a representar toda a vida. É necessário deitar fora a roupagem enganadora. E ser justos.

Quaresma – tempo de reconciliação, renovação e paz.




Notícias relacionadas


Scroll Up