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Da Esquerda e da Direita

A origem e o significado das designações “esquerda” e “direita”, em termos políticos, remetem para o período da revolução francesa, há cerca de duzentos anos

N/D
11 Fev 2005

Na campanha eleitoral que está agora nas ruas e nos media, os diferentes partidos, à procura de votos, tentam clarificar as suas diferenças, optando também nalguns casos, de forma lamentavelmente mais agressiva, por tentar denegrir as propostas dos partidos rivais e a imagem dos respectivos líderes.

Já aqui referi noutro artigo que as diferenças ideológicas – num arco que, grosso modo, vai do centro direita ao centro esquerda – se encontram hoje atenuadas, pelos constrangimentos resultantes do liberalismo económico, triunfante através da designada “globalização”, o que ajuda a compreender a excessiva personalização das campanhas eleitorais.

Obviamente, que se nos estendermos mais para a esquerda ou mais para a direita do espectro político as diferenças começam a ser mais notórias. Contudo, com aparente paradoxo, nos extremos do espectro político, ainda à direita e à esquerda, acabamos por detectar, na história contemporânea, muitos princípios comuns.

Assim, por exemplo, tanto os regimes nazi/fascistas como o estalinismo, na ex-União Soviética, se estruturaram, numa mesma época – desde finais da 1.ª Guerra Mundial até finais da 2.ª Guerra Mundial -, através de um grande fortalecimento do poder do estado em detrimento dos direitos individuais.

Nestes regimes, a censura e a polícia política combatiam a dissidência; a propaganda e a mentira glorificavam as acções do governo; o controlo dos sindicatos (e também a tutela do patronato, particularmente nos regimes fascistas, através das corporações) reforçava o papel central do estado; o culto da personalidade procurava mitificar as qualidades dos líderes políticos.

Como grande diferença, podemos reter que os regimes nazi/fascistas enfatizavam as virtudes da raça – do povo da respectiva nação – e entendiam que os homens eram por natureza desiguais, tal como umas nações eram superiores a outras, contrariamente à ideologia comunista que aspirava à construção de uma sociedade sem classes, partindo do pressuposto que os homens eram por natureza iguais.

Para o fascismo e particularmente para o nazismo, a assunção de um mundo de homens desiguais propiciou a emergência do racismo, o qual coligado com o nacionalismo favoreceu o ímpeto imperialista – donde, inevitavelmente, resultou a guerra.

Mais exemplos, de conjunção de posições nos extremos ideológicos, poderiam ser dados. Há cem anos atrás, o alemão Bernstein via no progressivo alargamento dos direitos de voto da população e na melhoria do rendimento global dos assalariados, na Europa mais industrializada (ver As premissas do Socialismo e as Tarefas da Social-democracia, 1901), uma prova de que o capitalismo era reformável, num sentido benévolo para os trabalhadores.

Curiosamente, a adopção do sufrágio universal (mesmo que masculino) gerava resistência nos meios mais conservadores, que temiam a subversão da ordem política estabelecida, enquanto que os mais radicais à esquerda desdenhavam tal progresso, porque consideravam que a sociedade capitalista (profunda e crescentemente injusta, na sua perspectiva) só podia ser transformada, e destruída, pela violência revolucionária.

Mas de onde vêm as designações esquerda e direita, em termos políticos? A origem destas denominações remete para o período da revolução francesa, há cerca de duzentos anos.

Em 1789, na Assembleia Constituinte francesa, como depois, designadamente no período radical da Convenção (1792-95) – durante o qual o rei, Luís XVI, é condenado à morte e executado -, os deputados que se situavam à esquerda, em relação ao presidente da assembleia, eram aqueles que defendiam mais reformas e alterações na ordem política e social vigente à época, enquanto que aqueles que se situavam à direita do presidente queriam minorar as mudanças.

Desde então, historicamente e em termos genéricos, a designação “esquerda” passou a conotar aqueles que defendem transformações ou mesmo rupturas políticas e económico-sociais, enquanto que a expressão “direita” tende a referenciar aqueles que valorizam mais o satus quo estabelecido em cada momento (daí também a designação comum de “partidos conservadores”).

Porém, como acabámos de ver atrás, os qualificativos “esquerda” e “direita” não tipificam de, forma absoluta, as diferenças entre os que se pretendem progressistas e os que visam retardar a mudança.

Há duzentos anos, a esquerda (os liberais) reclamava governos eleitos, liberdade de pensamento e de comércio. Progressivamente, os liberais passaram a ser conotados com a direita na Europa (nos EUA ser liberal, hoje, significa ainda ser de esquerda), emergindo mais à esquerda, ao longo do século XIX, correntes socialistas ou sociais-democratas.

Na Europa, entretanto – como observava Bernstein -, as injustiças sociais vão-se atenuando paulatinamente, afirmando-se o estado-providência, o qual a designada direita também adoptará, no essencial, como património comum.

Retomemos agora o nosso país e o nosso tempo. O maior estreitamento do leque ideológico nas democracias liberais, observado ultimamente, e os condicionalismos económico-financeiros que envolvem Portugal dificultam a apresentação de propostas muito divergentes pelos partidos que almejem integrar o futuro governo.

Apoiando-nos na tradição – atendo-nos apenas a estes partidos que aspiram a liderar o próximo governo -, será expectável, todavia, que um poder mais à esquerda (centrado no PS) veja no estado e na intervenção do poder público um papel mais relevante para combater a estagnação económica instalada, enquanto que um governo mais à direita (centrado no PSD) deverá enfatizar mais o papel da iniciativa privada para alcançar o mesmo objectivo.

De qualquer modo, ainda que a tendência comum nos discursos seja para a defesa de um emagrecimento da despesa pública, o papel do estado deverá continuar muito expressivo no futuro próximo, tão vastas são as responsabilidades sociais que o mesmo assumiu ao longo do reformismo das últimas décadas e tão condicionante é o volume de votos representado pelo conjunto de indivíduos directamente dependentes da sua corpulência e, claro está, da sua consistência.




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