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Avaria no teleponto

Votar em coerência com aquilo que se crê, é um luxo ou, afinal, uma obrigação?

N/D
9 Fev 2005

Numa homilia proferida no passado domingo, numa celebração transmitida pela Antena 1, o pároco da igreja de São João de Brito, de Lisboa, terá recomendado aos portugueses que não votem em partidos defensores do aborto, eutanásia e “direitos” dos homossexuais.
O padre Loreno alegou que a vida humana vai da concepção à morte e referiu que a ética cristã reprova que seja equiparada à família «uma união de um homem com outro homem» ou de «uma mulher com outra mulher».

A homilia causou repúdio nos sectores que defendem opinião contrária. E o secretário-geral do PS foi uma das vozes a ouvir-se. Sócrates – e cito a Lusa – disse: «Foram declarações muito infelizes, mas que o PS não valoriza, porque essas declarações não representam a posição da Igreja Católica».

Pode o líder socialista dar as voltas que quiser; pode afirmar que houve a politização de uma homilia; pode dizer que não se revê na doutrina da Igreja, nesta ou noutras matérias; pode, enfim, afirmar muitas coisas…

Mas sugerir ou dizer que é outra a posição da Igreja sobre os temas em questão, isso não. Aí, alguém o enganou no teleponto ou, então, a máquina estava desactivada!…

Poderia recomendar-se ao líder socialista, ao menos como curiosidade cultural, a leitura de diversos documentos onde a matéria em causa é abordada. No entanto, basta que em qualquer boa livraria procure o “Catecismo da Igreja Católica” e, numa visita ao índice temático, escolha rápidos esclarecimentos.

Sobre o aborto, por exemplo, o n.º 2270 é taxativo: «A vida humana deve ser respeitada e protegida, de modo absoluto, a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento da existência, devem ser reconhecidos a todo o ser humano os direitos da pessoa, entre os quais o direito inviolável à vida de todo o ser inocente».

No número imediato (2271) lê-se: «A Igreja afirmou, desde o primeiro século, a malícia moral de todo o aborto provocado. E esta doutrina não mudou. Continua invariável. O aborto directo, isto é, querido como fim e como meio, é gravemente contrário à lei natural».

E remate-se com um parágrafo mais (2273): «O inalienável direito à vida, por parte de todo o indivíduo humano inocente, é um elemento constitutivo da sociedade civil e da sua legislação».

E sobre a homossexualidade? Teria errado o bom do sacerdote? Tresleria ele as posições da Igreja Católica?

Voltemos ao Catecismo, que escreve (2357ss): a homossexualidade «reveste formas muito variáveis, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar.

Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem de uma verdadeira complementaridade afectiva se-xual, não podem, em caso algum, receber aprovação».

Reconhece o documento que «um número não desprezível de homens e mulheres apresentam tendências homossexuais profundas» e que «não escolhem a sua condição de homossexuais», que até pode constituir «para a maior parte deles uma provação».

Daí que devam «ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza» e sem sobre eles fazer recair «qualquer sinal de discriminação injusta». Mas significa isto abertura ao “casamento”?

Não, como vários pronunciamentos da Igreja claramente manifestam. Cite-se, apenas, o documento “Família, matrimónio e uniões de facto”, do Conselho Pontifício para a Família: «As uniões de facto entre homossexuais (…) constituem uma deplorável distorção do que deveria ser a comunhão de amor e vida entre um homem com uma mulher, que se empenham ao dom recíproco de si e se abrem à geração da vida.

Todavia é muito mais grave a pretensão de equiparar tais uniões ao “matrimónio legal”, como promovem algumas iniciativas recentes (…). Não pode constituir uma verdadeira família o vínculo entre dois homens ou entre duas mulheres, e muito menos se pode atribuir a essa união o direito de adoptar crianças sem família.

Recordar a transcendência social da verdade sobre o amor conjugal e, por conseguinte, o grave erro que seria o reconhecimento ou inclusive a equiparação do matrimónio às relações homossexuais não supõe discriminar de modo algum estas pessoas.

É o próprio bem comum da sociedade a exigir que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial com base na família que se veria deste modo prejudicada».

O Catecismo afirma, por seu turno (2360): «A sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se dão um ao outro com os actos próprios e exclusivos dos esposos, não é algo de puramente biológico, mas diz respeito à pessoa humana como tal, no que ela tem de mais íntimo.

Esta só se realiza de maneira verdadeiramente humana se for parte integrante do amor com o qual homem e mulher se comprometem totalmente um para com o outro até à morte».

Recolhidas estas afirmações doutrinais, estamos esclarecidos: afinal, o pároco de São João de Brito conhece e segue a posição da Igreja.

Pretender fazer crer que debitou apenas uma «infeliz» opinião pessoal e, para mais, discordante da sua Igreja, é um abuso que nem a época de campanha eleitoral desculpa.

Por isso, em vez de tentar confundir algum distraído, bem andaria Sócrates se, ao menos nesta matéria, dissesse: «só sei que nada sei!…»

Para terminar, uma derradeira pergunta: votar em coerência com aquilo que se crê, é um luxo ou, afinal, uma obrigação?




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