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Por uma democracia saudável

Custa-me ler certas notícias, como detesto que as ruas se tenham tornado em cortejos de demonstração e presidências abertas como ateneus de demagogia barata e de politiquice enfatuada.

N/D
8 Fev 2005

Mostramos assim um civismo democrático muito pouco salutar e menos convincente, mas todos telecomandados por tricas de diletantes e faquires, que fizeram uma massa amorfa e sem feições, aficionada a gostos dispersos, insanos e pervertidos…

O povo vem para as ruas: todos protestam, reivindicam, enquanto outros prometem o que não é seu, esquecidos de que são ou podem ser apenas administradores do bem comum. Qual o mais mentiroso? Qual o que se vende melhor?

E estas interrogações bailam no espírito de muitos, enquanto um grupo de “senadores” e encenadores, por trás dos bastidores, se ri e confunde ainda mais um povo, que não sabe o que quer, mas tem consciência do que lhe falta, e adivinha o que lhe pode acontecer.

Dias cinzentos e confusão de espíritos reina na cabeça de muitos, enquanto outros se riem da figura carnavalesca que, em máscaras postiças e reais, se estadeam nas ruas. É o Portugal axadrezado que somos, em que alguns gostam de viver, muito longe do bairrismo das bandeiras nacionais que usamos em delírios inebriantes de futebol.

Onde estamos, o que somos? Seremos uma palhaçada ambulante veiculada por gostos estranhos de vampiros e ideologias escondidas, que cavaram a nossa ruína e preparam o cemitério para tantas ilusões?!

Realmente, como escrevia um correspondente estrangeiro, Portugal tornou-se um reino de pessimismo… Porquê? Sentimentos de líricos ou de desesperados? Os extremos tocam-se e este povo não foi capaz de ter o sentido das proporções em todos os enganos, subterfúgios, refúgios e farturas que lhe prometeram.

De idílios fez monstros, de políticos uns palhaços, como corja de reumáticos e de educadores, de memória um necrotério embalsamado por cabeças monolíticas, sem História. Um país, a precisar de uma cirurgia, onde cada um atira da sua boca as balas que vão atingir o adversário nas suas entranhas, e impedir a troca de partilhas, que vão paralisar os centros vitais.

A vitória será para aquele que apodrecer em primeiro lugar, mas todos os adversários podem apodrecer em conjunto…

Será que pretendemos uma política deste jaez? Uma guerra de palavras, muito longe do pensamento e acções que temos, das actuações e métodos que usamos e, conjuntamente, nos divertimos e, silenciosamente, encenamos?

Seria necessário darmos as mãos para os objectivos que nos deviam unir a todos sem demagogias ou entusiasmos descabelados e irrealistas. Somos todos solidários e tripulantes do mesmo barco.

As setas que atingem alguns, cavam a ruína do conjunto e se extasiam por momentos, apenas podem adiar a morte ou o suplício, sarjando o coração com feridas que podem ser incuráveis. Será esta a função das lutas partidárias, quando se perde o sentido do homem e o gosto do universal, do pão, ou da meta que deve ser o objectivo de todos?

Sempre me condoeu e confundiu este tipo de propaganda eleitoral. Por isso me confrange o resultado de tal cenário e espectáculo veiculado.

No meio da noite, é preciso lançar passadiços. Só o ignoram aqueles que vivem ou fazem a sua sabedoria de uma indiferença egoísta. Talvez por esse motivo chegámos aonde estamos, mas não somos…

Com uma história de séculos, não poderemos continuar a dilacerar um povo, como viver das quimeras que forjaram uns tantos atrevidos, sem medir as responsabilidade dos dias e caminhos que trilhamos ou dos mitos que nos apresentaram, corroídos por dentro, ou envenenados nas entranhas.

Seremos capazes de discernir os que nos podem servir, ou queremos continuar constantemente adiados e perdidos nas tricas de uns tantos, que nunca mostraram a sua verdadeira face ou do povo que somos?

Talvez seja a hora. Despertemos. Nas nossas mãos a arma da vitória. Esta, porém, não será nunca a seta que vai matar o coração do inimigo ou amigo, mas mostrar o que desejamos e a forma como o sonhamos.

Seremos capazes de assim o discernir e criar um país onde os homens se elevem dos seus apetites, interesses e ódios escondidos?




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