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Chover no molhado (55)

Vou partir desta vivência pessoal: os desajustamentos internos da pessoa consigo mesma incorrem na dissonância com Deus, com os seus irmãos, com a terra, as plantas e os animais.

N/D
8 Fev 2005

O contrário também tem sentido: a dissonância com Deus implica, na pessoa, um desajustamento consigo mesma. O desajustamento engorda na unilateralidade. Crepita nos dualismos. Fortalece no desprestígio. Domina na fraqueza. Vagueia na arrogância.
E tudo isto à custa do que foi desvalorizado, maltratado e marginalizado. A partir daqui, célere se mobiliza a acção destrutiva e conflituosa da pessoa consigo mesma e com tudo o que a cerca.

Se nos quisermos, é obrigação nossa, libertar do peso dos desajustamentos, do sofrimento que isto acarreta, dos desesperos e angústias, urge adquirir, na unidade das recíprocas cooperações e conexões, conhecimentos sobre Deus e sobre as profundas motivações da psique humana.

Para dialogar com estas profundas motivações, vou servir-me da força dinâmica, que é o espírito existencial ou o espírito do bem. Embora saída da unidade de todas as formas de pensamento, já referidas em artigos anteriores, esta força é algo mais que supera esta unidade.

E esta unidade, superada agora por esta força, desabrocha do entrelaçamento de dois ramos: o do pensamento e o da acção. Estes despontam do mesmo tronco, que é o nosso ser real, profundo e concreto. E este tronco é feito de matéria espiritualizada, que é una e cuja forma está na sua unicidade. Não é dualista.

Não é uma associação, nem composição. Não é uma unidade de matéria e espírito. O nosso ser profundo é um dado, uno e simples. Por sua virtude, está, por isso, contra todos os dualismos intrínsecos, contra todas as desvalorizações, unilateralidades e marginalizações impostas do exterior.

O uno vive nos seus atributos: a vida, o dinamismo, a medida, o relacionamento, a harmonia, a simplicidade, o amor. Eis-nos, agora, na posse da autenticidade profunda das motivações da psique humana.

O espírito existencial pode pensar ajustadamente num ser superior, fonte e bebedouro do nosso ser profundo. Este ser superior, de existência real e concreta, é Deus. Não o aceitar acarreta frustração, angústia, sofrimento e desespero.

Orientar a vida existencial, através das suas vicissitudes, para esta profundidade autêntica da psique humana no seu motivador relacionamento com Deus, é tornar-se pessoa. É atingir a sua identidade. É participar da vida. É amadurecer. É ressurgir.

E qual a razão do que afirmo? Digo-o baixinho ao teu ouvido e peço a ajuda da tua mão. Disse-o como preparação para entrar na libertação da Religião e da Moral cristãs. Estas foram, injustamente, muito maltratadas. E as consequências dos maus tratos reflectem-se, ainda actualmente, em esbanjamentos de luz, nos campos cultural, social e político.

Vou explicar as minhas afirmações. O casamento, realizado no altar supremo da autoridade eclesiástica, entre a exclusividade dada à razão filosófica (herdada da cultura greco-latina) e a sensata e cautelosa religiosidade, ateia o devorador fogo da repressão contra a razão positiva, sacrificando, no altar da humilhação, o sentimento.

Como reacção, acastela-se, arrogantemente, o Iluminismo, abraçado calorosamente à fé da força da Razão e do Progresso. Que surge, então, destes céus culturalmente envoltos em nuvens pardacentas e ameaçadoras? Conflitos! Só conflitos!

As autoridades eclesiásticas e as laicas agridem-se, culturalmente, entre si. Qual a consequência? A anulação da religião, por intervenção das forcas laicas. A religião é, agora, dissolvida na racionalidade do corpo social, do estado e da política.

E a autonomia da Moral levanta-se em detrimento da fé cristã. E a indisposição, envolvida na dúvida, na hesitação, na fuga, que daí adveio para o seio da comunidade cristã, ainda se reflecte nos nossos dias.

Levanta-se a seguinte questão: de que lado sopra o ajustado pensamento?
Se me fundamentar no nosso ser profundo que, por sua natureza, está contra todos os dualismos intrínsecos, contra as desvalorizações, unilateralidades, marginalizações e desarmonias, direi que nenhuma destas forças nos fornece um pensamento ajustado.

De onde soprará, então, o mais ajustado pensamento? Direi que o sopro sairá do espírito existencial, ao começar, em nós, da pluralidade para a unidade; esta para a unicidade; desta para Deus. Entre a unidade e a unicidade, enraíza a sua fé na pessoa de Cristo.

Este é o espírito libertador. É o espírito que tudo orienta, controla e disciplina, até mesmo a teologia e moral cristãs.




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