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Pela Imprensa Estrangeira

Desde 27 de Janeiro até hoje, os jornais e revistas foram pródigos em assuntos cuja análise seria interessante.

N/D
6 Fev 2005

Auschwitz: Há 60 anos a libertação do Campo de Auschwitz simboliza a barbárie nazi (revista “Le Monde 2” de 29 de Janeiro);
Os presos palestinianos esperam a liberdade (“El País” de 31 de Janeiro);

Os políticos convertem Davos num escaparate das suas mensagens.

O presidente francês, Jacques Chirac, o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, e o presidente do Brasil, José Inácio Lula da Silva, lograram colocar no frontispício do encontro a luta contra a pobreza, o perdão da dívida, o combate contra a sida e a preservação do meio ambiente (lia-se no mesmo jornal);

A nossa galáxia é um canibal (revista “Science et vie”, Fevereiro de 2005);

As esperanças de Tianamen foram a enterrar com Zhao Ziyang;

O ex-chefe do Partido Comunista Chinês que se opôs à repressão da Primavera de Pequim foi incinerado sábado debaixo de fortes medidas de segurança policial (“Liberation” de 31 de Janeiro);

A ONU não conclui que houve genocídio mas crimes contra a humanidade em Darfur, no Sudão (“Le Monde”, 2 de Fevereiro);

O Congresso diz não a Ibarretxe (“El País”, 2 de Fevereiro);

Viva inquietação sobre o estado de saúde de João Paulo II (“Le Monde”, 3 de Fevereiro).

A alguns destes assuntos voltaremos em breve, designadamente ao Holocausto e ao Plano Ibarretxe.

Mas, agora, vamos para o Iraque.

Para compreender um pouco o povo (ou povos) do Iraque passámos, vagarosamente, duas recentes obras, a saber: “Iraque, assalto ao Médio Oriente”, de Noam Chomski, e “Guerra contra o Iraque”, de William Rivers Pitt e Scott Ritter.

Estes últimos dizem: os efeitos do colonialismo ocidental, da intervenção dos Estados Unidos, da direcção política perigosa, da Guerra Fria e do petróleo dominaram a história do Iraque durante o século XX. O Iraque domina as segundas maiores reservas de petróleo do mundo, o que o transforma numa peça valiosa para as nações ocidentais industrializadas.

As fronteiras do Iraque actual, bem como as fronteiras da maior parte das nações do Médio Oriente foram talhadas, arbitrariamente, pelos britânicos e pelos franceses na primeira metade do século XX. Estes homens que talharam o território nada sabiam e pouco se importavam com as ligações tribais que constituíam a essência cultural do Médio Oriente.

A causa da má divisão das fronteiras do Iraque depreende-se das palavras de Noam Chomski: (…) a Turquia sempre considerou, com alguma justiça, que o chamado Norte do Iraque lhe devia realmente pertencer. Grande parte da população é turca. A fronteira entre a Turquia e o Iraque foi estabelecida pelos ingleses. Não tinha significado.

Foi estabelecida para garantir que a Grã-Bretanha conservaria o controle sobre o percurso petrolífero do norte do Iraque e assim vedá-lo à Turquia. Os turcos não estão propriamente satisfeitos com isto, obviamente.

Mas enfim, neste país com más fronteiras, como em muitos outros países do mundo, neste país com divergências religiosas profundas, houve eleições no dia 30 de Janeiro.

Vamos ver o modo como, nos dias anteriores às eleições, a elas se referia a imprensa:
Estas eleições são um simulacro (“Herald Tribune”, 28 de Janeiro); Iraque adopta importantes medidas de segurança tendo em vista as eleições (“Le Monde”, 29 de Janeiro); O Iraque blinda-se para evitar atentados nas eleições (“El País”, 29 de Janeiro); no mesmo jornal dizia-se: Iraque fecha estradas, aeroportos e fronteiras para impedir o caos no dia das eleições.

Os curdos dispõem-se a votar em massa no meio de medidas de segurança extremas (“El País”, 30 de Janeiro).

No entanto, não obstante as ameaças de banho de sangue e os apelos sucessivos (e ameaçadores) ao boicote ao voto por parte dos grupos fomentadores do terrorismo, o que aconteceu no dia 30 de Janeiro e o que vem acontecendo desde aí?

A lição dos iraquianos. Enfim, uma boa-nova! A confiança na democracia e a necessidade da participação no seu próprio destino destruíram uma boa parte dos medos e desmentiram os prognósticos mais sombrios (“La Croix”, 31 de Janeiro).

Ambiente de festa para os curdos d’Erbil. A capital do Curdistão autónomo votou com entusiasmo. E sonha já com a independência (“Liberation”, 31 de Janeiro).

Efectivamente o Iraque foi a votos, tendo milhares de iraquianos participado no primeiro escrutínio multipartidário dos últimos 50 anos (“Liberation”, 31 de Janeiro).

Vamos ver como as contradições vão evoluindo nos próximos tempos. E que as vai haver depreende-se de passagens como estas: Os xiitas estendem a mão à minoria sunita depois da eleição no Iraque (“El País”, 2 de Fevereiro).

No mesmo jornal: A minoria sunita poderá votar a futura Constituição.

Reaparece a insegurança. A maioria dos iraquianos querem que os soldados dos Estados Unidos partam mas temem, todavia, que a retirada agrave a situação.

Uma zona rica em petróleo e em tensões étnicas.

E a 3 de Fevereiro dizia-se no “El País”: Os líderes religiosos sunitas do Iraque asseguram que as eleições não foram legítimas.

E, transcrevendo parte de um discurso de Mohamed Bachar al Faidy, diz-se: advertimos as Nações Unidas e a comunidade internacional do perigo de le-gitimar estas eleições, porque abriram a porta do inferno.

A revista “Newsweek” do dia seguinte às eleições e subordinado ao título “Um dia de ataques no Iraque” dizia: Os combatentes da resistência, quer iraquianos quer estrangeiros, continuam a operar através do país.

Queremos acreditar que os bons tempos vão surgir e que as nações fortes se vão entender relativamente ao Iraque. Assim dizia “Le Monde”, de 2 de Fevereiro: Aproximação franco-americana depois das eleições iraquianas. Bush telefona a Chirac e Schroeder. Consenso sobre a gestão da crise iraquiana.

Apesar do que supra se referiu dos sunitas, vamos acreditar que os líderes do Iraque querem cooperação e que os principais candidatos a primeiro-ministro estendam a mão aos sunitas.

E, deste modo, vamos ter fé na previsão do Governo Iraquiano que anuncia para o fim do ano a redução das tropas aliadas (“Faro de Vigo”, 2 de Fevereiro).

E, se não for antes, que pelo menos então haja condições para que tal aconteça.




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