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Viagem acidentada

Aí está a crise. Todos a sentimos. Não há discurso que a disfarce. O tempo que vivemos tem tanto de sublime como de repulsivo. Em Portugal, vários são os indicadores de que não vamos bem. Talvez, sobretudo, de que não vamos.

N/D
5 Fev 2005

Como que fomos revisitados pelo passado que tanto nos custou a vencer com as vozes e os braços do povo. As nossas pequenas cidades e aldeias como que tinham ressuscitado da indiferença e desimportância.
E eis que ressurgem imagens de pobreza, desemprego, desertificação, envelhecimento, desencanto, sem nobreza, com um folhetim interminável de violências e patologias, agora inteiramente expostas a todo o país, fazendo esmorecer a alegria da dignidade reassumida com um saudável orgulho pela terra, pela nossa terra.

De longe – hoje quase não há longe – também nos chegam palavras vestidas de luto. A guerra do Iraque continua teórica e praticamente sustentada por fantasmas.

Sucedem-se conflitos e ameaças. A fome extrema continua o seu escândalo. E não nos sai dos olhos o golpe cruel nas ilusões que foi o maremoto do dia seguinte ao Natal – estando ainda nós a festejar a esperança na máxima potência.

Tenho, nestes últimos domingos, sob inspiração de Isaías, esgaravatado razões de esperança face a aparentes evidências duma espécie de conspiração combinada entre o homem e a natureza com vista ao desmoronamento dos nossos sonhos. E a campanha eleitoral que corre o país, isto é, os media, está maquilhada das mesmas falácias e revestida das mesmas lantejoulas de artifício de pessimismo e breve esperança.

Tenho notado, na preparação da liturgia destes domingos, uma cumplicidade estranha entre Jesus e o profeta Isaías. Jesus veio confirmar que todos os sonhos e poemas do profeta são mesmo verdade. Pura verdade. Nem hipérbole nem utopia.

A verdade pura do futuro, que já se desenha. Temos de pôr o coração alerta para o sentir e os braços em força para o realizar. A desgraça é um acidente passageiro. A Graça é o quotidiano de Deus e do homem. Foi Jesus Quem o garantiu. Olhando bem, os Evangelhos, tal como Isaías, não dizem outra coisa. Quando o barco parecia afundar-se, Jesus perguntou: “Porque tendes medo, homens de pouca fé”?




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