Fotografia:
Voto útil? a quem?

Com a sagacidade e experiência que justamente lhe são reconhecidas, o Prof. Adriano Moreira costumava dizer que “o voto útil só é útil a quem o recebe, não a quem o dá”.

N/D
3 Fev 2005

E esta afirmação mantém plena actualidade, como a prática política abundantemente tem demonstrado.
Com efeito, se os eleitores não votam, conscientemente, num partido com cujos valores, programas e propostas se identificam, antes preferindo a escolha de outra formação partidária, da mesma ou de diversa área política, em nome da utilidade ou pragmatismo dessa opção, estão desde logo a legitimar decisões e comportamentos políticos que, não raras vezes, se mostram contrários aos princípios éticos e morais em que acreditam e às soluções políticas em que verdadeiramente se revêem.

E só se apercebem da gravidade das consequências da opção tomada quando já é tarde para arrepiar caminho. Infelizmente, na política, não há votos condicionais: depois de feita a votação, só nas eleições subsequentes poderá emendar-se a mão e responsabilizar politicamente os eleitos, recusando-lhes o sufrágio.

Vem isto a propósito, estimados leitores, da retórica pré-eleitoral que, em discursos e cartazes de propaganda, vem sendo assumida pelo partido minoritário da coligação que sustenta o Governo demissionário.

É realmente uma ironia do destino que seja exactamente o líder do CDS/PP – um dos partidos que, ao longo dos últimos anos de democracia em Portugal, tem sido a maior vítima do voto útil em favor do seu parceiro da actual coligação – a vir pedir agora o voto útil dos portugueses, com o fantástico argumento de pretender restaurar e fortalecer uma coligação com o mesmo partido à custa do qual viu minguar o seu eleitorado!

E isto quando o próprio Dr. Paulo Portas insinua, sem quaisquer subterfúgios, que os ministros do CDS/PP foram melhores que os do PSD e quando outras figuras de proa daquele partido falam, claramente, de uma crise de liderança e de credibilidade do actual chefe do Governo!

Quer dizer: quando se reconhece que um partido – o PSD – merece ser castigado pelas sucessivas trapalhadas e contradições em que se deixou enredar e pela mediocridade, inabilidade e incompetência reveladas pelo chefe do Executivo, vem o seu “leal” parceiro de coligação pedir o voto útil para si próprio, para de seguida, voltar a formar governo com um partido que o não merece ou de cuja liderança abertamente descrê, na hipótese remota de o PSD conseguir com o CDS/PP a dificílima proeza de ter mais votos que o PS e ser confrontado com a longínqua possibilidade de este partido não ser capaz ou não querer fazer um governo de coligação com o BE ou com o PC.

O que parece claro é que, havendo indicações seguras de que o PSD vai perder as eleições e já ter assumido, interiormente, a derrota, como resulta dos evidentes e públicos conflitos e divisões entre os seus “barões”, o Dr. Paulo Portas pretende perpetuar-se no poder com quem quer que seja, mantendo o sistema político iníquo que no passado repudiou, ajudando a aprovar uma Constituição Europeia que preconiza a criação de um Estado Federal Europeu a que ainda há bem poucos anos atrás se opunha radicalmente e continuando a pactuar com um regime privativo de reformas dos titulares dos cargos políticos que sempre rejeitou enquanto não acedeu à mesa do orçamento…

Se a inteligência dos políticos é hipócrita, se a sua sinceridade é fabricada, se a sua atitude é egoísta e releva de interesses particulares e se a sua postura é arrogante, acreditam, deveras, os meus estimados leitores na utilidade do voto em pessoas assim e em partidos que representam a continuidade do sistema político cuja mudança todos sentimos ser urgente e necessária?

É essa a utilidade da resposta consciente que o País espera de todos nós no próximo dia 20.




Notícias relacionadas


Scroll Up