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Muito circo… mas pouco pão

«O político pensa nas próximas eleições, o estadista na próxima geração» (Otto von Bismarck, estadista alemão, 1815-1898)

N/D
3 Fev 2005

Li recentemente uma sondagem segundo a qual cada vez mais se acentua o afastamento e desencanto dos portugueses com a política e os políticos deste lusitânico rectângulo à beira-mar situado tendo, a maioria dos inquiridos, vaticinado poucas (ou nenhumas) mudanças significativas no país, seja qual for o resultado das próximas eleições legislativas.
Há quem advogue que as sondagens são o que são e valem o que valem. Confesso que, de certo modo, até concordo com o sentido dessa frase pouco mais ou menos feita e pronunciada até ao esgotamento pelos defensores desta ou daquela causa, principalmente quando estão em jogo altos (ainda que por vezes dúbios) interesses.

Porém, se partirmos do princípio de que não há regra sem excepção, e dado o tema que está na base deste meu escrevinhar, abdico da primeira e opto pela segunda (a excepção) já que, penso eu, é de todo o interesse levar em linha de conta o resultado da já citada sondagem pois nada melhor do que ter olhos perspicazes e ser todo ouvidos à voz do povo que – e fazendo uso de uma expressão muito terra-a-terra-minha-gente – é como o algodão: não engana!

Estou convicto de que os indagados espelharam o sentir do país real, não obstante e por incrível que pareça a indígena casta política e os seus caudilhos que nos saiu na rifa com o advento do 25 de Abril de 1974 de cuja árvore original nunca discordei mas que dos seus frutos abjurei (até rima!), continuem useiros e vezeiros a ludibriar sem apelo nem agravo (como se três décadas já não bastassem) com promessas esvaziadas de conteúdo, discursos demagógicos e seus apêndices, etc., etc., os homens e as mulheres que, abnegadamente, e ai é que bate o ponto, dão vida com a sua própria vida a esta Pátria no dia-a-dia árduo de trabalho e no cumprimento integral dos seus deveres cívicos e sociais para – vezes sem conta isso acontece – depois do sol-posto (sem falarmos… para lá dessa hora) revirados os bolsos que portam o “suor” de um dia de trabalho, pouco mais contabilizam do que o suficiente (e nem sempre) para o caldo, a broa e os medicamentos enquanto no lado oposto a “classe caviar” se “esfalfa” em tertúlias político-conjurativas, chanceladas de “confidencial”; de puros havanos entre o dedo indicador e o médio, embora às vezes por conveniência própria mudem de posição, do charuto e não só, com o imprescindível acompanhamento do aristocrático whisky de primeira apanha, tudo isto em nome da democracia “que ainda vamos tendo” mas que se vai diluindo lenta mas progressivamente, ressentindo-se – como não poderia deixar de ser – do aviltamento de que tem sido vitima por parte de alguns. Em nome da liberdade de fulano, que deveria exaurir-se onde começa a liberdade de sicrano e, claro está, em nome do povo… desse povo que afinal está enfas-tiado de tanta litania política, que clama por mais pão e menos circo.

Desse povo que reivindica (e com razão) a imperiosa necessidade de uma refundição dos políticos (salvo algumas e raras excepções) que a falaciosa abrilada nos impôs, para que finalmente a verdadeira política possa refulgir como o sol que nos aquece o corpo e nos conforta a alma e para que – por último – tenhamos estadistas que pensem nas novas gerações e não políticos que só pensam nas próximas eleições.

Os estrategas da campanha eleitoral (com pré- ou sem pré-) que se cuidem. Eles e os seus amos. E que de uma vez por todas saibam olhar e estimar o zé-povinho como um todo portador de mentes com massa encefálica e não com serradura como (talvez) alguns possam ajuizar.




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