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Eleger e ser eleito

Não é bom que o poder esteja à mercê de aventureiros e de oportunistas.Infelizmente, porém, isso chega a acontecer, porque os mais capazes lhes deixam
campo aberto

N/D
3 Fev 2005

Vem no livro dos Juízes. Após a morte de Gedeão, Abimelec fez-se proclamar rei. Alertando para a má escolha feita pelo povo e para as suas perniciosas consequências, Joatão contou a seguinte fábula: «Decidiram as árvores, um dia, ungir um rei para reinar sobre elas. Disseram à oliveira: ‘Reina sobre nós!’

A oliveira respondeu: ‘Renunciaria eu ao meu azeite, que tanto apraz aos deuses como aos homens, a fim de balançar por sobre as árvores?’

Então as árvores disseram à figueira: ‘Vem tu reinar sobre nós!’

A figueira respondeu-lhes: ‘Iria eu abandonar a minha doçura e o meu saboroso fruto a fim de balançar por sobre as árvores?’

As árvores disseram então à videira: ‘Vem tu, e reina sobre nós!’

A videira respondeu-lhes: ‘Iria eu abandonar o meu vinho novo, que alegra os deuses e os homens, a fim de balançar por sobre as árvores?’

Então todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Vem tu, e reina sobre nós!’
E o espinheiro respondeu às árvores: ‘Se é de boa fé que me ungis para reinar sobre vós, vinde e abrigai-vos à minha sombra. Se não, sairá fogo dos espinheiros e devorará os cedros do Líbano!»

A história fala de ditadores que começaram por ser eleitos democraticamente. Porque quem os elegeu os não conhecia suficientemente. Porque quem os elegeu não pôde escolher melhor. Porque quem os elegeu não soube escolher melhor.

Às vezes conseguem o poder indivíduos que se revelam como o espinheiro da fábula: fraudulentos e falsos – o espinheiro não dá sombra – que praticam a violência e exercem arbitrariamente o poder.

Mas as pessoas elegeram-nos, confiando na mansidão das suas palavras e no idílico das suas promessas. Nem se deram ao trabalho de ver se eram pessoas capazes de cumprirem o que prometiam ou se tinham os meios necessários para concretizarem as promessas que faziam.

Nem sempre o poder cai em boas mãos, e isto também porque há cidadãos que assumem atitudes semelhantes às da oliveira, da figueira, da videira da fábula. Pessoas muito capazes recusam assumir postos de comando.

Se, em democracia, votar é um dever – é uma, mas não a única, forma de participar – não deixa de ser também um dever, para quem tem qualidades e disponibilidade, integrar as listas a apresentar a sufrágio.

Não é bom que o poder esteja à mercê de aventureiros e de oportunistas. Infelizmente, porém, isso chega a acontecer, porque os mais capazes lhes deixam campo aberto. Porque o comodismo e os interesses pessoais são colocados acima do bem comum.

E também porque há quem não tenha qualquer interesse em que os lugares de chefia sejam ocupados pelos mais honestos e pelos mais íntegros, pois ficaria sem espaço de manobra.




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